Pai da prefeita do Conde revela câncer



O ex-secretário de Educação do Estado, professor Everaldo Lucena (86), está com câncer nos pâncreas e avisou aos filhos, irmãs e netos que não vai se submeter a nenhum tipo de intervenção ou tratamento além do que já foi feito. “Como não há o que fazer para que eu retome a liberdade mínima que eu estava tendo de levantar da cadeira e ir ao banheiro por exemplo, decidi que não farei nenhum tipo de intervenção ou tratamento além do que já fizemos, vou dormir até que o corpo resolva essa questão", teria dito, segundo o relato da sua filha, a prefeita do Conde Márcia Lucena.




Ela escreveu, num longo artigo, sobre a essa decisão do seu pai e os ensinamentos que ele deixava com o gesto compartilhado com os familiares.










Márcia Lucena conta passagens da vida do seu pai, um andarilho convicto e um intelectual.  "Agora, de repente surge um câncer de pâncreas que representa desgosto profundo, associado às limitações no pulmão que representa tristeza profunda, problemas nos rins que traduzem o medo profundo e ao coração crescido que, no seu caso, certamente por acolher tanto amor profundo", disse.






Leia, na íntegra, o texto de Márcia Lucena:




“Esse é meu pai o Professor Iveraldo Lucena.

Isso foi um ato em frente ao presídio Julia Maranhão, no dia 22 de dezembro de 2019, onde “eu me encontrava presa, na cela de uma cadeia”, por algo que nunca fiz e que ainda não foi explicado.

De lá de dentro ouvi sua voz que ecoou em mim aquele amor gigante! Muito maior do que o imenso amor de um pai por uma filha: o amor pela verdade, o amor por todos os conhecidos e desconhecidos que vivem ou poderão vir a viver injustiças, o amor pela vida de uma nação e seu processo democrático! A voz de um homem justo!

Quem não tem forças para enfrentar as adversidades e as injustiças diante de um homem tão lúcido?

E quando esse homem é seu pai e lhe ensina, com seus atos e palavras, sobre o amor – não o amor egoísta, que prende e limita, aquele amor que faz o sujeito bater no peito de dizer “eu e os meus primeiro”, não, a língua dele sempre foi o amor por todos, pela verdade, pela vida.

Meu pai é um contador de estórias, um professor de história, um gestor público, um servidor público, um amante da vida, da natureza, dos sonhos, um andarilho convicto.

Agora, de repente surge um câncer de pâncreas, que representa desgosto profundo, associado às limitações no pulmão, que representam tristeza profunda, problemas nos rins que traduzem o medo profundo e ao coração crescido que, no seu caso, certamente por acolher tanto amor profundo…

Ontem meu pai, diante do avanço de seu quadro clinico, conversou conosco, seus filhos, suas irmãs, seus netos para dizer da sua decisão: “Como não há o que fazer para que eu retome a liberdade mínima que eu estava tendo de levantar da cadeira e ir ao banheiro por exemplo, decidi que não farei nenhum tipo de intervenção ou tratamento além do que já fizemos, vou dormir até que o corpo resolva essa questão “. Ajustou com cada um de nós alguns detalhes, como um bom professor, nos deu segurança e tranquilidade.

Resolveu sua herança em vida há anos atrás (o lugar onde moramos a vida toda no Conde seu único patrimônio, a Pitumirim, dividiu no Incra em glebas e doou para cada filho),explicou que não teremos problemas, pois não tem dinheiro acumulado, mas não tem dívidas e falou da felicidade e do prazer que foi conviver conosco.

Nega, minha mãe, o amor de sua vida, está com a consciência oscilando, mas não esquece seu Nego por um minuto, deverá ir vê-lo hoje, com ele já “dormindo”, pois ele não quer vê-la sofrer.

Assim, um homem que viveu a vida de forma linda, grande, amorosa, decide sobre a morte com a mesma inteireza, grandeza e lucidez.

Se despediu, se recolheu e decidiu deixar a natureza, essa respeitável senhora, fazer a sua parte com reverência.

Achei, olhando para o meu pai ao longo da vida, como uma filha perdidamente apaixonada, que não suportaria o dia que esse momento chegasse, que não saberia viver sem sua orientação, suas palavras, seu colo, seu olhar, seu amor.

Mas a vida é um caminho de aprendizados e tivemos nos nossos pais bons professores.

A sua última lição tão amorosa, respeitosa e desapegada nos tira o direito de acessarmos o desespero, de congelarmos na dor. Nos impõe o respeito à vida acolhendo a sua morte.

Meu pai está indo deixando alguns desejos inevitáveis de pai e companheiro para trás: preocupações com minha mãe, com meus irmãos, comigo… coisas sem fim para um pai presente e amoroso e um marido apaixonado.

Aqui, com meus botões tenho o desgosto de ver meu pai se despedir sem ver a injustiça contra mim reparada, mas sei que vai com a tranquilidade e a certeza da filha que tem…

“Tudo é experiência de vida” sempre falou.

Nessa última conversa com ele dissemos “painho, o senhor tem algo fundamental ainda, o senhor tem a lucidez!” E ele respondeu com muita dificuldade, pois sem forças para emitir os sons da fala -“conceitue lucidez”…

Só me resta te dizer: te amo tanto painho, muito obrigada por tudo e vai voando, leve para os braços do pai, que,certamente, estará feliz em poder lhe dar um abraço.

O tempo que seu corpo ficar aqui ficará cercado de beijos e carícias, não sabemos o quanto isso vai durar, mas não lhe prenderemos em lugar nenhum! Você é um andarilho e tem uma bela caminhada a fazer”.