Galdino deu um nó tático

Ninguém espera que o presidente da Assembleia Legislativa, Adriano Galdino (PSB), eleito para dois mandatos consecutivos à frente do Poder, abra uma dissidência e rompa com o governador João Azevêdo e com o coletivo girassol. Não há o menor sinal de fumaça para esse incêndio na base governista, que é concreta e tem o peso de iniciar a legislatura com 23 deputados estaduais. A vitória de Galdino se deu pelo seu poder de articulação entre os parlamentares, com uma boa dose de jogadas de bastidores, que culminaram numa estratégia bem diferente da imaginada pelo Palácio da Redenção. Os deputados traçaram um limite de atuação e independência entre o Legislativo e o Executivo, como tem que ser, e que está na Constituição denominando de "harmônico e independente".

Adriano Galdino sobrou nesse jogo de bastidores. É importante remontar algumas cenas desse enredo, lá atrás, a partir da aprovação da PEC que acabava com a reeleição, com a antecipação da eleição para a mesa do segundo biênio e abolia o voto secreto. Ainda na gestão do ex-governador Ricardo Coutinho, os deputados foram pressionados a desfazer a decisão do plenário. Viram um parecer de uma assessoria jurídica se sobrepor à soberania popular. Nesse instante, Galdino enfrentava resistências veladas do Palácio da Redenção, que apostava em nomes como Hervázio Bezerra, Estela Bezerra e Buba Germano. Os deputados mandaram o primeiro recado quando aceitaram a volta da reeleição e a manutenção da antecipação, mas mantiveram o voto secreto, que seria confirmado em decisão do STF, quando julgou caso relativo ao Senado e à Câmara Federal.

A resistência velada ao nome de Galdino já não surtia efeito, porque o deputado foi blindado pela ampla maioria da própria base governista. Era o nome para ser aclamado, como o foi, no primeiro biênio. O Palácio engoliu a seco e trabalhou o nome para os dois últimos anos. Chegou-se a Hervázio Bezerra, que seria capaz de quebrar arestas na base e ainda conquistar alguns oposicionistas. Um dia antes da posse e eleição das mesas, uma reunião na Granja Santana com o governador João Azevêdo e 22 deputados da base (Tião Gomes, do Avante, faltou) pretensamente selou o acordo e a chapa para eleição de Galdino. Na chapa de Hervázio ainda faltava costurar cargos e nomes para a oposição, na mesa eclética.

Quando Tião anunciou no plenário que estava renunciando sua candidatura a presidente e chamou Galdino para ser candidato à reeleição, ele apenas verbalizou um acordo fechado dias antes, sem ser notado nos radares da Granja Santana e do Palácio da Redenção. O Avante ficou com a vice-presidência, no primeiro e no segundo biênio. Um sinal de que o partido construiu essa estratégia com o bloco de Galdino dias antes. A distribuição de cargos entre partidos, nas duas mesas, também denunciou essa estratégia.

Adriano Galdino deu de capote e saiu-se consagrado nas duas votações, por uma oposição fechada em torno do seu nome. Os 13 votos que lhe faltaram na segunda votação foram de deputados que seguiram à risca a cartilha da Granja Santana.

O presidente da Assembleia Legislativa não romperá com o Palácio, garante a governabilidade por quatro anos a João Azevêdo, mas deixa claro um sinal de valorização do Legislativo, sem se permitir à submissão, que era o que todos mais temiam se o resultado para a escolha do presidente fosse outro.