65% rejeitam políticos e 78% caem em fake news emocional, aponta LINA
4 de outubro de 2026
Redação

A caminho das eleições de 2026, a integridade da disputa política no Brasil enfrenta um duplo gargalo: a descrença profunda na classe política e a alta permeabilidade da opinião pública a conteúdos manipulativos. É o que aponta a pesquisa inédita “Termômetro do Brasil”, desenvolvida pelo LINA (Laboratório de Inteligência sobre Narrativas e Algoritmos), do  Instituto Oyá, organização dedicada à promoção da justiça climática. O levantamento revela que 65% da população declara não confiar em políticos em geral. Em paralelo, 78% dos entrevistados são induzidos ao erro ao aceitar como verdadeiras narrativas falsas estruturadas sobre forte apelo emocional. A amostragem ouviu 2 mil pessoas em todas as regiões do país para mapear os mecanismos de manipulação algorítmica, o impacto da desinformação e a saúde da democracia. 

Crise de confiança atinge Judiciário, Legislativo e Executivo
O estudo detalha que a erosão do capital institucional afeta transversalmente os três Poderes da República. A desconfiança da população atinge seu ápice nos partidos políticos (64%) e no Congresso Nacional (54%), estendendo-se ao Poder Executivo nas três esferas de governo (45%) e ao Supremo Tribunal Federal (41%).

Em relação à lisura do processo eleitoral, 41% dos entrevistados declaram confiar nas eleições, enquanto 37% mantêm neutralidade e 17% manifestam desconfiança explícita. O ceticismo também contamina a visão de futuro: 56% dos brasileiros afirmam ter pouca ou nenhuma esperança na capacidade de representantes políticos liderarem uma agenda de desenvolvimento sustentável.

Na contramão do descrédito da política partidária, o setor de tecnologia desponta como o de maior credibilidade no país (67%), enquanto as organizações não governamentais (ONGs) somam 45% de confiança.

Teste cego revela que mentira emocional supera o fato científico: 78% aceitaram fake news
A pesquisa mapeou o ecossistema da desinformação sob a ótica comportamental e de percepção tecnológica. Enquanto 51% dos brasileiros consideram a disseminação de fake news um problema muito grave, a penetração de ferramentas de Inteligência Artificial já é de conhecimento amplo: 81% da população declaram ciência sobre a capacidade da IA de criar deepfakes, que são conteúdos multimídia falsos que simulam perfeitamente voz, imagem e vídeo de pessoas reais.

Contudo, para mensurar a verdadeira vulnerabilidade do eleitorado à manipulação, o estudo realizou um teste cego de credibilidade informacional, expondo os entrevistados a conteúdos reais e simulados:

  • Adesão à narrativa falsa (78%): Uma notícia inventada, que utilizava dados fictícios comparando as enchentes no Rio Grande do Sul ao Furacão Katrina, obteve taxa de aceitação de 78%, impulsionada por seu forte apelo sensacionalista e emocional.
  • A rejeição ao fato científico (69%): Em contrapartida, uma notícia verdadeira, amparada por dados técnicos e históricos do Cemaden e do INPE sobre eventos hídricos extremos no país, registrou adesão menor (69%).

O resultado do experimento evidencia que a carga emocional e a capacidade de comoção das narrativas sobrepõem-se à evidência científica e à checagem de fatos, impondo um risco crítico para o ambiente informativo no ano eleitoral.

Democracia permanece no horizonte de riscos, mas cidadania migra para formas digitais e pragmáticas de engajamento
A despeito da profunda crise de representatividade, a preservação do regime democrático se mantém como valor prioritário no país. Ao projetar as principais ameaças ao futuro de suas famílias, a “ameaça à democracia” é citada por 32% dos brasileiros, empatando com o receio do desemprego (32%) e posicionando-se como um dos principais fatores de ansiedade geracional.

O estudo indica, contudo, uma nítida repaginação no modo como o cidadão exerce sua atuação política. A população afasta-se dos formatos tradicionais de militância e exposição pública: 45% descartam qualquer intenção de candidatar-se a cargos eletivos, 39% recusam envolvimento em atividades de partidos e 33% declaram indisposição para participar de protestos de rua.

Em contrapartida, o exercício da cidadania ganha força por meio de canais digitais e ações diretas de baixo atrito. O engajamento se consolida na assinatura de petições virtuais e mobilizações em redes sociais (21%), no boicote ético a marcas e empresas (16%) e no suporte financeiro ou institucional a ONGs e movimentos sociais (14%), desenhando o perfil de um eleitorado que busca impacto sem intermédio da estrutura partidária tradicional.

Para Kamila Camilo, diretora executiva do Instituto Oyá, o estudo evidencia que a população não desistiu da democracia, mas busca novos canais de representatividade. “Os dados provam que o brasileiro não está apático, mas sobrecarregado por modelos de representação que não resolvem as urgências da sua rotina. Diante do descrédito nas instituições e da manipulação algorítmica nas redes, a sociedade migra para formas pragmáticas de ação comunitária e engajamento digital. Nosso papel, por meio da inteligência do LINA, é oferecer letramento tecnológico, ciência de dados e escuta ativa para blindar a autonomia do cidadão e garantir que o exercício da cidadania seja pautado por evidências, e não pela desinformação”, finaliza a executiva. 

Ficha Técnica da Pesquisa

  • Realização: LINA / Instituto Oyá 
  • Amostra: 2 mil  entrevistas com a população brasileira conectada (18 anos ou mais) 
  • Abrangência Nacional: Sudeste (43%), Nordeste (26%), Sul (14%), Norte (8%) e Centro-Oeste (8%) 
  • Período do estudo de campo: 30 de julho a 19 de agosto de 2026

Sobre o Instituto Oyá
O Instituto Oyá é uma organização dedicada à promoção da justiça climática, da educação ambiental e da inovação social. A instituição atua na formação de lideranças, no fortalecimento de comunidades e na construção de soluções que conectam tecnologia, impacto socioambiental e desenvolvimento sustentável. 

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