O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 revela um cenário de contrastes no país. Ao mesmo tempo em que o Brasil registrou a menor taxa de Mortes Violentas Intencionais (MVI) desde 2012, com 40.775 vítimas em 2025 — redução de 8,2% em relação ao ano anterior —, o levantamento também evidencia o crescimento da criminalidade digital, o aumento dos feminicídios, dos casos de stalking, da violência contra crianças e adolescentes e a expansão das medidas socioeducativas em meio fechado. Os dados reforçam que, embora alguns indicadores apresentem evolução, o país ainda enfrenta desafios estruturais para consolidar uma política nacional de segurança pública.
Na avaliação do delegado e especialista em segurança pública André Santos Pereira, o Anuário demonstra que a segurança pública brasileira vive uma transformação profunda no perfil da criminalidade, exigindo respostas igualmente modernas por parte do Estado.
Segundo o estudo, o Brasil alcançou a menor taxa de mortes violentas dos últimos 13 anos. Entretanto, estados das regiões Norte e Nordeste continuam concentrando os maiores índices de homicídios, evidenciando profundas diferenças regionais. O Amapá lidera o ranking nacional, seguido por Bahia e Ceará.

Para André Santos Pereira, os números precisam ser analisados com cautela.
“A queda nacional reflete avanços em governança e ações pontuais, mas a persistência de ‘ilhas de alta letalidade’ expõe a fragilidade da articulação nacional. A política pública ainda reage de forma assimétrica, sem sufocar a dinâmica territorial das facções criminosas nos estados mais vulneráveis.”
Na avaliação do especialista, o cenário demonstra que o país precisa abandonar respostas isoladas e investir em estratégias permanentes, capazes de integrar inteligência, investigação e cooperação entre os diversos órgãos responsáveis pela segurança pública.
Outro destaque do Anuário é a significativa redução dos crimes patrimoniais praticados mediante violência ou grave ameaça. Os roubos de transeuntes caíram 35,5%; os roubos de veículos, 20,6%; e os roubos de carga, 19,8%.
Enquanto isso, os estelionatos alcançaram um novo recorde: foram 2.261.055 registros em 2025, o equivalente a aproximadamente 258 golpes por hora, consolidando-se como o principal crime patrimonial do país.
Segundo André Santos Pereira, essa mudança revela uma transformação na atuação das organizações criminosas.
“O crime se modernizou e migrou para o ambiente virtual. As políticas focadas no policiamento ostensivo e na repressão física tradicional perderam eficácia relativa contra uma criminalidade invisível e desterritorializada. O ecossistema policial precisa acelerar o investimento em inteligência cibernética, cruzamento de dados e rastreamento de ativos financeiros.”
Para o delegado, o enfrentamento desse novo perfil criminoso passa necessariamente pela modernização das estruturas investigativas, especialmente das Polícias Civis, responsáveis pela investigação criminal, que também ajuda a combater os homicídios, que diminuíram no aspecto geral. Porém, os indicadores relacionados à violência doméstica e familiar continuam em trajetória ascendente.
O Anuário aponta crescimento de 4% nos feminicídios, totalizando 1.571 vítimas em 2025. Os registros de stalking aumentaram 30,1%, chegando a 123.871 casos. Também cresceram os maus-tratos contra crianças e adolescentes (14,6%), enquanto os crimes relacionados à produção, posse e distribuição de material de abuso sexual infantil tiveram alta de 25,3%.
Outro dado alarmante refere-se aos crimes sexuais. O país registrou 84.388 vítimas de estupro e estupro de vulnerável, sendo que 77% das vítimas eram consideradas vulneráveis, em sua maioria crianças de até 13 anos, números que evidenciam limitações importantes na capacidade preventiva do Estado.
“As forças de segurança tradicionais têm dificuldade de prevenção dentro do ambiente doméstico e familiar, bem como na contenção de redes cibernéticas de pedofilia. Revela-se a necessidade imperiosa de fortalecer a Polícia Civil com delegacias especializadas, ampliar mecanismos de proteção, aperfeiçoar a investigação cibernética e integrar as redes de assistência social e saúde”, avalia André.
Na visão do especialista, é preciso priorizar a investigação tecnológica, com fortalecimento e criação de núcleos especializados na investigação de crimes cibernéticos e lavagem de dinheiro, entre outros. E atacar, de forma firme a violência doméstica.
“Uso de tecnologia de monitoramento de agressores e fortalecimento das patrulhas especializadas para coibir a escalada da violência doméstica antes que ela culmine em feminicídio”, reforça.
Fonte: André Santos Pereira – Delegado de Polícia do Estado de São Paulo, especialista em Inteligência Policial e Segurança Pública (Escola Superior de Direito Policial/FCA), ex-presidente da ADPESP – Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo e diretor de Estudos e Propostas Legislativas da Associação dos Delegados de Polícia do Brasil (ADEPOL-BR). Coordenador do Fórum Resiste-PCSP.
Jornalista, radialista e advogado, formado na UFPB, Hermes de Luna tem passagens nos principais veículos de comunicação da Paraíba. É MBA em Marketing Estratégico e em mídias digitais. Apresentador e editor de TV e rádio, também atuou na editoria de portais e sites do estado. Ganhador de vários prêmios de jornalismo, na Paraíba e no Brasil.