Estamos diante de um dos períodos mais complexos da história recente. Ao mesmo tempo em que a inteligência artificial redefine setores inteiros da economia, a geografia continua impondo rotas comerciais, disputas por recursos e estratégias de poder. Enquanto algoritmos transformam mercados em questão de meses, interesses nacionais seguem sendo moldados por fatores que atravessam séculos.
Esse aparente paradoxo talvez seja a melhor forma de aquilatar o cenário internacional atual.

De um lado, existe o aqui denominado eixo cíclico da história: as disputas por poder, influência, segurança e recursos continuam tão presentes quanto sempre estiveram. A geografia importa, assim como a demografia e a soberania.
Por outro lado, vivenciamos o eixo mutável das transformações tecnológicas: inteligência artificial, biotecnologia, computação em nuvem, redes digitais, rastreabilidade, plataformas e dados se alteram constantemente, conforme a competição global se intensifica.
A lógica da disputa permanece; contudo, os instrumentos mudaram.
Entender essa dualidade tornou-se pressuposto para qualquer país que pretenda ocupar posição de relevância neste século XXI.
Durante anos, a globalização foi analisada sob o ângulo dos fluxos comerciais. Atualmente, porém, a competição internacional ocorre em múltiplas dimensões simultaneamente.
As cadeias de suprimentos revelaram-se ferramentas geopolíticas; os semicondutores tornaram-se ativos estratégicos de defesa; a segurança alimentar integrou-se rapidamente às agendas de segurança nacional; e dados, patentes, biotecnologia e inteligência artificial converteram-se em elementos centrais da disputa por poder.
O conflito contemporâneo raramente se revela apenas por meios militares. Ele se efetiva em uma ampla “zona cinzenta”, onde coexistem ciberataques, guerras informacionais, dependência tecnológica, controle regulatório transnacional e disputas por cadeias produtivas críticas.
Diante desse cenário, nenhum país pode assumir que a estabilidade será a regra, porque a instabilidade tornou-se estrutural. Pensar o contrário é fazer uma leitura ideológica ou estar mal informado.
O 15º Plano Quinquenal Chinês (2026–2030) implicará uma mudança radical de direção, uma vez que o antigo paradigma do crescimento acelerado baseado em volume dá lugar ao conceito de “desenvolvimento de alta qualidade”. Em outras palavras: o objetivo deixa de ser crescer mais, e a prioridade passa a ser crescer com resiliência.
Os pilares dessa nova ordem chinesa consistem em: segurança nacional, segurança tecnológica, segurança alimentar, segurança energética e sustentabilidade ambiental.
A China busca diminuir sua vulnerabilidade internacional e aumentar sua capacidade de absorver choques geopolíticos, econômicos e climáticos.
Em sequência, surge o novo Código Ecológico Chinês, que se consolidará a partir de 2026, com foco em rastreabilidade ambiental. A redução da intensidade de carbono, a biossegurança e a conformidade regulatória passam a fazer parte da própria lógica de mercado.
O mercado chinês, a partir de agora, demandará produtos rastreáveis, com menor pegada ambiental, menor dependência de agroquímicos e crescente incorporação tecnológica.
Muito além de comprar alimentos, a China busca controlar cadeias genéticas, fortalecer sua soberania em sementes, expandir a automação agrícola e desenvolver a bioeconomia e proteínas alternativas.
A segurança alimentar deixou de ser apenas uma questão agrícola e se converteu em questão de Estado.
A União Europeia alterou as regras de acesso ao seu mercado, enquanto a China também alterou seus critérios de demanda.
O EUMETA 2024 (Acordo Comercial União Europeia–Mercosul) representa uma mudança de parâmetro, pois, no modelo anterior de 2019, era lastreado em cooperação e metas aspiracionais. No entanto, evoluiu para uma lógica de condicionalidade vinculante na versão que entrou em vigor este ano. Por essas razões, a sustentabilidade deixa de ser discurso diplomático para tornar-se requisito contratual.
O Acordo de Paris assume papel central diante das mudanças de paradigma da China e da União Europeia, atuais grandes compradores mundiais.
Carne bovina, aves, açúcar e diversos outros produtos passam a depender de comprovação verificável de conformidade ambiental.
Os ativos estratégicos passam a ser rastreabilidade, georreferenciamento e transparência das cadeias produtivas.
Diante desse novo cenário, o Brasil, ao comprovar de forma robusta seu desempenho ambiental, poderá transformar exigências regulatórias em barreiras de entrada para concorrentes menos preparados.
O Brasil dispõe de uma das matrizes energéticas mais renováveis do mundo, preserva grande parte de seu território, detém uma das maiores reservas de biodiversidade do planeta e possui conhecimento acumulado em agricultura tropical. Desenvolveu e utiliza ferramentas tecnológicas como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), a fixação biológica de nitrogênio (FBN), a agricultura de precisão e sistemas de baixo carbono, o que o coloca em posição de destaque.
Historicamente, o Brasil estabeleceu sua competitividade lastreada em seus ativos naturais: terra, água, clima e escala produtiva. Esses ativos continuam essenciais, mas não são suficientes.
A competição deslocou-se do hardware para o software. O hardware continua sendo terra, água, biomassa e recursos naturais; já o software é composto por biotecnologia, inteligência artificial, genética, plataformas digitais, propriedade intelectual e controle dos códigos-fonte da produção.
O maior desafio está posto: não perder autonomia tecnológica e não se tornar dependente dos outros. Não podemos incorrer no erro de continuar exportando volume e desprezando a exportação de conhecimento, do qual temos abundância.
Se existe uma conclusão inevitável diante desse cenário, ela é simples: o futuro da competitividade brasileira dependerá menos da expansão de área e mais da expansão do conhecimento.
Isso exige uma reinvenção do sistema nacional de ciência e inovação. A missão deixa de ser apenas aumentar produtividade e passa a incluir propriedade intelectual, tecnologia exportável e posicionamento como referência global em sustentabilidade produtiva.
O mundo não está optando entre crescimento e sustentabilidade. Está exigindo ambos.
O Brasil está diante de uma mudança estrutural do sistema internacional, e não apenas de uma conjuntura comercial.
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Por RÔMULO MONTENEGRO
(Ex-Secretario de Estado da Agricultura e Produtor Rural)
Jornalista, radialista e advogado, formado na UFPB, Hermes de Luna tem passagens nos principais veículos de comunicação da Paraíba. É MBA em Marketing Estratégico e em mídias digitais. Apresentador e editor de TV e rádio, também atuou na editoria de portais e sites do estado. Ganhador de vários prêmios de jornalismo, na Paraíba e no Brasil.