Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS), o Bolsa Família atende atualmente 19,34 milhões de famílias e 50,1 milhões de pessoas em todo o Brasil. Por trás desse número, há um perfil bem definido de quem recebe o benefício, e ele contraria boa parte do imaginário popular sobre o programa.
Do total de famílias atendidas, 84% têm uma mulher como responsável familiar. Pessoas pretas e pardas somam 73,2% dos beneficiários. Mais de 22,7 milhões são crianças e adolescentes, que recebem adicionais específicos do programa. Na prática, quem mais recebe o Bolsa Família são mulheres negras que criam filhos sozinhas ou com pouca rede de apoio.
Esse perfil ajuda a explicar algo que raramente entra na conta quando se fala do programa, que é conhecido como economia do cuidado. Cuidar de crianças, idosos ou pessoas com deficiência é um trabalho diário e também essencial na vida dessas famílias, mas quase sempre invisível, sem remuneração, sem carteira assinada e sem entrar em nenhuma estatística de emprego. Para uma mulher que cria os filhos sozinha, esse cuidado costuma tomar o dia inteiro, e é isso que acaba limitando que tipo de trabalho remunerado ela consegue aceitar, em que horário e com qual renda.
É esse cuidado invisível que explica por que uma vaga formal, mesmo existindo, nem sempre é uma alternativa real ao benefício. Um emprego com horário incompatível com a escola dos filhos, sem creche disponível ou sem alguém para dividir essa responsabilidade não é, na prática, uma opção, é só uma vaga no papel. Enquanto esse cuidado continuar sendo tratado como algo natural, e não como trabalho, ele vai seguir de fora das estatísticas, mas presente na vida de milhões de famílias.
Para Carol Luck, coordenadora do Projeto Brief, entender quem recebe o Bolsa Família é o primeiro passo para qualificar esse debate. “A gente fala muito sobre o Bolsa Família e esquecemos de olhar para a maioria que recebe esse benefício. Muitas vezes sendo mulheres negras que administram sozinhas a casa, os filhos e uma renda que muda todo mês. O trabalho de cuidado que essas mulheres fazem segue sendo o mais invisibilizado de todos”, afirma.
Sobre Projeto Brief
O Projeto Brief, iniciativa da Quid, é uma plataforma de comunicação política com foco em dados e campanhas mobilizadoras. Sua missão é fortalecer a compreensão sobre temas políticos relevantes e oferecer ferramentas de comunicação que apoiem a construção de discursos mais estratégicos e eficazes, tanto no ambiente digital quanto fora dele.
Jornalista, radialista e advogado, formado na UFPB, Hermes de Luna tem passagens nos principais veículos de comunicação da Paraíba. É MBA em Marketing Estratégico e em mídias digitais. Apresentador e editor de TV e rádio, também atuou na editoria de portais e sites do estado. Ganhador de vários prêmios de jornalismo, na Paraíba e no Brasil.