O consumidor brasileiro deve sentir um alívio na conta de energia elétrica já no próximo mês. Em entrevista ao programa Correio Debate, da TV Correio, o diretor financeiro executivo da Usina Itaipu Binacional, o paraibano André Pepitone, anunciou o pagamento do chamado Bônus Itaipu, crédito que será concedido diretamente na fatura de energia de agosto de 2026 para consumidores residenciais e rurais de todo o país.
Segundo Pepitone, a medida vai injetar R$ 872 milhões no sistema elétrico com o objetivo de reduzir o valor pago pelos consumidores e reforçar a política de modicidade tarifária, princípio que busca manter a energia elétrica em patamares mais acessíveis. A estimativa é de que o bônus alcance cerca de 82 milhões de brasileiros.

O desconto será aplicado automaticamente na conta de luz, sem necessidade de cadastro ou solicitação por parte do consumidor. Terão direito ao benefício os clientes das classes residencial e rural que, ao longo do ano civil de 2025, tenham registrado consumo inferior a 350 quilowatts-hora por mês. O cálculo será feito com base no histórico de consumo mês a mês, e o valor do crédito vai variar conforme o padrão de uso de cada unidade consumidora.
De acordo com o diretor de Itaipu, o abatimento máximo na conta de agosto poderá chegar a R$ 34. No caso de um consumidor com perfil médio nacional, com consumo em torno de 120 kWh por mês, a redução esperada é de aproximadamente R$ 10. “Se pegarmos um consumidor médio brasileiro, que consome em torno de 120 kWh, esse cliente terá um abatimento de R$ 10 na conta de luz”, afirmou Pepitone durante a entrevista.
O anúncio do bônus foi um dos principais pontos da conversa no Correio Debate, mas não o único. Ao longo da entrevista, Pepitone detalhou a relevância histórica, econômica e operacional de Itaipu Binacional e apresentou a usina como peça estratégica para a segurança do sistema elétrico brasileiro em meio à transição energética, ao crescimento acelerado das fontes renováveis e aos efeitos das mudanças climáticas sobre a infraestrutura do setor.
Itaipu e a modicidade tarifária
O bônus anunciado para agosto se insere em um debate mais amplo sobre o custo da energia no Brasil. Ao justificar a medida, Pepitone afirmou que a intenção é colocar o consumidor no centro da política energética, usando os resultados financeiros e operacionais da usina para amortecer parte da conta paga pela população.
A lógica do benefício é simples: quanto menor o consumo dentro do limite estabelecido, maior a chance de o consumidor se enquadrar no programa e receber o crédito. Como o recorte contempla consumidores residenciais e rurais com gasto mensal abaixo de 350 kWh em cada mês de 2025, o bônus tende a atingir justamente a parcela mais numerosa do mercado de baixa tensão.
Na prática, o crédito aparecerá diretamente na fatura de agosto, reduzindo o valor final a pagar. O montante de R$ 872 milhões será distribuído entre os consumidores aptos, o que, segundo Pepitone, representa uma ação concreta de Itaipu em favor da modicidade tarifária em um momento em que o setor elétrico convive com pressões crescentes de custo, necessidade de investimentos e mudanças na matriz de geração.
De área em litígio a símbolo de cooperação entre países
Durante a entrevista, André Pepitone também foi questionado sobre o papel de Itaipu na transição energética e sobre o que a experiência da usina pode ensinar ao mundo. Na resposta, ele resgatou a origem da binacional e lembrou que Itaipu nasceu de um contexto histórico delicado entre Brasil e Paraguai, marcado por disputas territoriais posteriores à Guerra do Paraguai.
Segundo o executivo, a principal contribuição de Itaipu para o debate energético internacional vai além da geração de eletricidade. Para ele, o maior legado da usina é o modelo de cooperação entre dois países que transformaram um conflito em parceria institucional, energética e econômica.
Pepitone destacou que, em vez de uma nova disputa sobre a área em litígio, Brasil e Paraguai optaram por construir juntos uma das maiores hidrelétricas do mundo. O território que antes simbolizava tensão acabou convertido em reservatório e em um projeto binacional de grande escala, com impactos na geração de energia, no desenvolvimento regional e na integração entre as duas nações.
Na avaliação do diretor, esse arranjo institucional mostra que a transição energética global também depende de estabilidade, planejamento de longo prazo e cooperação internacional, especialmente em um cenário no qual os países disputam investimentos, tecnologia e segurança energética.

Brasil larga na frente na transição energética
Ao analisar o cenário nacional, Pepitone afirmou que o Brasil reúne condições privilegiadas para ocupar posição de destaque no processo de transição para uma economia de baixo carbono. O diagnóstico parte da própria composição da matriz elétrica brasileira, marcada por forte presença de fontes renováveis.
Ele citou a combinação entre hidrelétricas, parques eólicos, usinas solares, biomassa e biometanocomo um diferencial competitivo do país, somado à dimensão territorial e à variedade de recursos naturais disponíveis. Para o executivo, poucos países reúnem, ao mesmo tempo, volume de geração renovável, capacidade de expansão e um sistema interligado com a abrangência do brasileiro.
Pepitone chamou atenção para um ponto técnico que, segundo ele, ajuda a explicar a robustez do setor: o fato de o Sistema Interligado Nacional conectar os 27 estados brasileiros em uma mesma malha elétrica. Na prática, isso permite que a energia gerada em uma região seja transportada para outra com mais segurança, estabilidade e flexibilidade operacional.
Essa integração, observou, facilita o aproveitamento das diferentes vocações energéticas do país. Em momentos de maior geração eólica no Nordeste, por exemplo, ou de maior disponibilidade hídrica em outras regiões, o sistema consegue redistribuir a energia e equilibrar a operação nacional.
Itaipu mudou de função, mas segue estratégica
Ao longo da entrevista, o diretor financeiro também explicou como o papel de Itaipu mudou nas últimas décadas. Regida por um tratado internacional assinado em 1973 e submetida a um regime jurídico próprio, a usina já teve peso ainda maior na oferta nacional de energia.
Segundo Pepitone, na década de 1990 Itaipu chegou a responder por 25% do mercado brasileiro. Hoje, com a expansão do parque gerador e a diversificação da matriz elétrica, a participação da usina caiu para cerca de 8% do atendimento nacional. Essa redução, no entanto, não representa perda de relevância. Ao contrário: indica uma mudança de função dentro de um sistema mais complexo e diversificado.
O parque elétrico brasileiro, lembrou o executivo, saiu de aproximadamente 110 mil megawatts para os atuais 258 mil megawatts de capacidade instalada. Nesse novo desenho, Itaipu deixa de ser apenas uma grande geradora e passa a exercer um papel de reserva estratégica e estabilizadora do sistema.
A explicação está diretamente ligada ao crescimento das fontes intermitentes, especialmente a solar e a eólica. Essas fontes têm ampliado rapidamente sua participação na matriz, mas dependem de condições climáticas e não podem ser acionadas com a mesma previsibilidade de uma hidrelétrica.
É justamente aí que Itaipu, e as hidrelétricas em geral, ganham importância. Pepitone observou que, quando a geração solar cai no fim da tarde ou quando o vento perde intensidade, o sistema precisa de fontes capazes de responder rapidamente à demanda. A usina hidrelétrica tem essa capacidade de reação, podendo aumentar a entrega de energia em curto espaço de tempo e ajudar a manter o equilíbrio do sistema.
Além disso, o diretor ressaltou que a energia de Itaipu continua entre as mais competitivas do portfólio das distribuidoras que atendem consumidores do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, o que reforça o papel da usina também na contenção de custos.
Nordeste avança em renováveis e expõe novo desafio
Outro eixo importante da entrevista foi o crescimento das usinas eólicas e solares, especialmente no Nordeste, e os gargalos criados por essa expansão acelerada. Pepitone reconheceu o protagonismo da região na geração de energia limpa, mas destacou que a incorporação em larga escala dessas fontes exige soluções adicionais de transmissão, armazenamento e estabilidade elétrica.
Segundo ele, o desafio está no caráter intermitente dessas tecnologias. A energia solar depende da incidência de sol; a eólica, da intensidade dos ventos. Quando a produção é elevada, o sistema precisa estar preparado para absorver esse excedente. Quando cai de forma abrupta, é necessário acionar outras fontes ou mecanismos capazes de compensar a oscilação.
Nesse contexto, Pepitone apontou as baterias de armazenamento em larga escala como a próxima grande fronteira tecnológica do setor elétrico brasileiro. De acordo com o executivo, o Governo Federal prepara um leilão de baterias, iniciativa vista por ele como um passo decisivo para dar mais segurança à operação do sistema.
A lógica do armazenamento é guardar o excedente de energia produzido em horários de maior vento ou de maior radiação solar para devolvê-lo à rede no momento de maior necessidade. Com isso, o sistema ganha flexibilidade, reduz desperdícios e melhora sua capacidade de responder aos picos de consumo e às oscilações naturais das renováveis.
Para Pepitone, esse movimento representa “o salto tecnológico” que o setor elétrico brasileiro precisa dar para consolidar a transição energética sem comprometer a confiabilidade do abastecimento.

Mudanças climáticas já pressionam o planejamento do setor
Na parte final da entrevista, André Pepitone abordou outro ponto considerado decisivo para o futuro da energia no país: os efeitos dos eventos climáticos extremos sobre a infraestrutura elétrica. Ao comentar a preparação do sistema para enfrentar esse cenário sem provocar apagões ou aumentos excessivos de tarifa, o diretor afirmou que o desafio já está colocado para engenheiros, operadores e formuladores de políticas públicas.
Segundo ele, a mudança do padrão climático exige rever parâmetros de projeto e ampliar a resiliência das redes de transmissão e distribuição. Pepitone citou como exemplo o dimensionamento das estruturas para suportar ventos cada vez mais fortes. Se antes as linhas eram projetadas para resistir a rajadas da ordem de 110 km/h, o novo contexto, segundo ele, já impõe a necessidade de suportar velocidades entre 170 km/h e 180 km/h em determinados cenários.
Isso significa que o setor elétrico terá de investir mais em reforço de infraestrutura, modernização de equipamentos, redes mais robustas e sistemas de resposta rápida a eventos extremos. Na avaliação do diretor, a adaptação às mudanças climáticas não é mais uma hipótese de longo prazo, mas uma exigência presente para garantir segurança energética e continuidade do serviço.
Crédito na conta e recado ao setor
O anúncio do Bônus Itaipu acaba reunindo, em um único gesto, duas dimensões do debate energético brasileiro. De um lado, oferece um alívio imediato ao consumidor, com a promessa de redução na conta de luz de agosto para milhões de famílias e produtores rurais. De outro, recoloca Itaipu no centro de uma discussão mais ampla sobre o futuro do setor, a segurança do sistema, o papel das hidrelétricas e os investimentos necessários para sustentar a expansão das fontes renováveis.
Ao detalhar o funcionamento do crédito, defender o armazenamento por baterias e destacar a função estratégica de Itaipu no equilíbrio do Sistema Interligado Nacional, André Pepitone sinalizou que a transição energética brasileira não será feita apenas com a abertura de novos parques solares e eólicos. Ela dependerá também de planejamento, transmissão, reserva de potência, cooperação institucional e capacidade de adaptação climática.
Para o consumidor, o efeito mais visível virá já na próxima fatura. Para o setor, a entrevista deixou um recado mais amplo: a energia do futuro passa por inovação, mas também por estabilidade, integração e capacidade de resposta.
Jornalista, radialista e advogado, formado na UFPB, Hermes de Luna tem passagens nos principais veículos de comunicação da Paraíba. É MBA em Marketing Estratégico e em mídias digitais. Apresentador e editor de TV e rádio, também atuou na editoria de portais e sites do estado. Ganhador de vários prêmios de jornalismo, na Paraíba e no Brasil.