O brasileiro terá que trabalhar até o dia 30 de maio de 2026 exclusivamente para pagar tributos, segundo o novo estudo elaborado pelo Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), que analisa a incidência de impostos, taxas e contribuições sobre a renda, o consumo e o patrimônio do cidadão. O levantamento indica que a carga tributária efetiva sobre os brasileiros está, para o ano de 2026, em 41,10%, o que representa 150 dias do ano dedicados apenas ao pagamento das tributações.
O estudo do IBPT revela que, entre 2003 e 2025, houve um crescimento gradual da carga tributária suportada pelos contribuintes sobre rendimentos, consumo, patrimônio e outras incidências, ainda que com algumas oscilações pontuais ao longo do período. Em 2003, o percentual era de 36,98%, avançando para 40,01% em 2007 e permanecendo próximo ou acima da faixa dos 40% nos anos seguintes, inclusive em 2026, mesmo diante de mínimas reduções registradas em determinados períodos anteriores.

O presidente-executivo do IBPT e um dos autores do estudo, João Eloi Olenike, afirma que, embora o cenário já fosse esperado, é preocupante constatar que, mesmo após décadas de elevada carga tributária, o brasileiro ainda precise dedicar quase cinco meses de trabalho apenas para custear o Estado. “O principal problema é que, apesar da alta arrecadação, a população ainda não percebe um retorno proporcional em serviços públicos de qualidade”, enfatiza.
A apuração do Instituto também mostra um aumento expressivo na quantidade de dias trabalhados pelos brasileiros apenas para custear tributos, mas especialmente entre 1986 e 2025. O levantamento revela que, por exemplo em 1986, eram necessários 82 dias de trabalho para o pagamento, número que chegou a cair para 73 dias em 1988, mas logo a seguir passou a registrar crescimento constante.
Essa alta se intensificou, especialmente, a partir de 2001, quando, por exemplo, atingiu 130 dias, mantendo consequentemente uma média entre 140 e 150 dias que responde até os períodos mais recentes.
“Na análise comparativa entre 2021 e 2024, a diferença de dois dias no total de meses trabalhados deve considerar que 2024 foi um ano bissexto, com 366 dias. Outro ponto é que, no período entre 2020 e 2022, foi impactado pelos efeitos econômicos provocados pela pandemia da Covid-19, influenciando diretamente os indicadores analisados. Já em 2025, embora tenha sido mantido o mesmo número de dias, registrados em 2024, houve aumento proporcional no período contabilizado, justamente porque o ano anterior contou com um dia adicional por ser bissexto”, descreve Olenike.
Análise por décadas
Também com relação à média de dias por década, houve um aumento substancial nos dias trabalhados.
Análise por renda
O IBPT reforça que, atualmente, se trabalha praticamente o dobro do que se trabalhava na década de 70, para pagar os tributos. E, ainda, pondera que o levantamento base, para o cálculo do número de dias trabalhados foi feito por faixa de renda, considerando-se o período de maio de 2025 a abril de 2026.
O Instituto descreve em seu estudo que, para chegar nesses resultados por meio da análise comparativa, foi utilizado, para fins tributários, a faixa mensal de rendimento de até R$ 3.000,00 (classe baixa), de R$ 3.000,00 a R$ 10.000,00 (classe média) e acima de R$ 10.000,00 (classe alta).
Principais aumentos de tributação no período desse estudo
1) Aumento da alíquota de ICMS modal na importação (RET)
Embora houve aumento de alíquotas, quase que geral na edição anterior, o IBPT aponta que ocorreu, no período base deste estudo (maio 2025 a abril de 2026), vários aumentos de percentuais de alíquotas modais de ICMS em alguns estados sejam: Maranhão, de 22% para 23%, Rio Grande do Norte, 18% para 20% e estado do Piauí, passando de 21% para 22,5%.
O Instituto ainda reforça a manutenção e o aumento da alíquota de ICMS cobrado pelas importações via Programa Remessa Conforme da Receita Federal. Em relação ao acréscimo da alíquota do ICMS de 17% para 20%, em 2024 – essa mudança não ocorreu em 2024.
Sendo assim, considerou-se o aumento para 20% quando entrou em vigor em 1º de abril de 2025, em dez estados, sendo: Acre, Alagoas, Bahia, Ceará, Minas Gerais, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe e Amapá.
2- Continuidade da taxa das blusinhas na importação
Nas razões apontadas no decorrer do estudo, o Instituto também reforça a cobrança da alíquota de 20% do Imposto de Importação (o tributo federal) sobre as compras internacionais de até U$ 50 começou a valer, oficialmente, no dia 1º de agosto de 2024, mas teve e continuou tendo reflexo de aumento de tributação.
3- Houve aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras)
O IOF foi o principal tributo majorado no período e as mudanças atingiram o crédito para empresas, operações de câmbio, previdência privada (VGBL/PGBL), seguros e operações financeiras em geral.
4- Tributação das Bets (apostas esportivas e jogos online)
O setor passou a operar plenamente regulado em 2025. A tributação criada/expandida e foi consolidada a cobrança sobre a receita bruta das apostas (GGR). Sendo assim, a alíquota era de 12% em 2025, foi elevada para 15% em mudanças aprovadas no fim de 2025, com implementação gradual.
5- Aumento da tributação sobre fintechs e instituições financeiras
Houve elevação da CSLL (Contribuição Social sobre Lucro Líquido) e, por meio disso, a medida afetou as fintechs, bancos digitais, instituições de pagamento e financeiras.
6- Aumento do IR sobre JCP (Juros sobre Capital Próprio)
Os JCP são usados por empresas para remunerar acionistas e a mudança da alíquota do IR foi que subiu de 15% para 17,5%.
7) Aumento da alíquota do imposto de importação itens tecnologia
Houve aumento do Imposto de Importação de alguns produtos de tecnologia, a partir de fevereiro de 2026. As tarifas subiram em até 7,2 pontos percentuais em vários itens.
Em outra pesquisa comparativa, agora com base no índice da Carga Tributária sobre o PIB, ou seja, transformando-se o percentual deste índice em número de dias trabalhados para pagar tributos, conclui-se que para isso, os cidadãos de outros países trabalharam no ano.
Metodologia da tabela acima
O IBPT, em sua metodologia, reforça que a quantidade de dias trabalhados no quadro anterior, foi obtida por meio da transformação da Carga Tributária sobre o PIB. Com referência ao Brasil, foi extraída de outro estudo do IBPT (IRBES). Alguns outros países, não pertencentes à OCDE tiveram seus índices obtidos em pesquisas elaboradas em páginas de pesquisa online. Mas, todos os números se referem ao ano de 2024.
Metodologia geral do estudo
O estudo considera três faixas de renda – até R$ 3.000, entre R$ 3.000 e R$ 10.000, e acima de R$ 10.000 mensais – e faz a ponderação da carga tributária incidente sobre renda, consumo e patrimônio. A base de cálculo abrange o período entre maio de 2025 e abril de 2026, incluindo tributos federais, estaduais e municipais, como IRPF, INSS, ICMS, IPI, ISS, IPVA, IPTU, taxas diversas e contribuições.
O rendimento médio foi utilizado como referência especial, nesse trabalho. O número de dias trabalhados foi calculado a partir da proporção entre esse rendimento e o total de tributos pagos. Dados internacionais foram baseados em estudos da OCDE e adaptados para conversão em dias trabalhados com base na fórmula: Carga Tributária/PIB x número de dias do ano.
Sobre o IBPT
Fundado em 1992, o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) dedica-se ao estudo do complexo sistema tributário brasileiro, sendo reconhecido pela adoção de linguagem clara e precisa para comunicar à sociedade a realidade tributária do país. O instituto também contribuiu de forma pioneira para a disseminação do conceito de transparência fiscal e para a conscientização tributária.
Pioneiro na criação de estratégias de mercado para empresas e entidades setoriais a partir da análise de dados fiscais públicos e abertos, o IBPT sua spin-off Empresômetro mantém investimentos contínuos em tecnologia e na capacitação de sua equipe, possuindo o maior banco de dados privado com informações tributárias e empresariais do país.
Jornalista, radialista e advogado, formado na UFPB, Hermes de Luna tem passagens nos principais veículos de comunicação da Paraíba. É MBA em Marketing Estratégico e em mídias digitais. Apresentador e editor de TV e rádio, também atuou na editoria de portais e sites do estado. Ganhador de vários prêmios de jornalismo, na Paraíba e no Brasil.