Em audiência pública realizada na Câmara dos Deputados, especialistas, autoridades e representantes da sociedade civil alertaram para o avanço dos crimes de crueldade contra animais impulsionados por conteúdos disseminados na internet — prática que, segundo os participantes, pode estar diretamente ligada ao aumento de outros tipos de violência, inclusive contra pessoas.

Dados apresentados pela representante do Instituto Ampara Animal, Rosângela Gebara, indicam que só no ano de 2024 foram identificados mais de 83 mil links disseminando crueldade contra animais em 11 plataformas abertas como Tik Tok, You Tube, Facebook, etc*.Para a ativista, o problema exige atenção urgente, especialmente no ambiente familiar.
“Os principais criminosos e serial killerscomeçaram praticando abusos contra animais. Quando crianças e adolescentes são coagidos a esse tipo de conduta, estamos diante de um risco real de dessensibilização de uma geração inteira e formação de futuros agressores”, afirmou.
Gebara também defendeu maior responsabilização das plataformas digitais. Segundo ela, as mesmas tecnologias usadas para proteger marcas comerciais (brand safety) — com remoção automática de conteúdo irregular — poderiam ser aplicadas para identificar e excluir rapidamente vídeos de crueldade animal (animal safety).
A chefe do Núcleo de Operações e Articulações Digitais da Polícia Civil de São Paulo, Lisandrea Colabuono, trouxe relatos alarmantes sobre a dinâmica desses crimes. De acordo com a investigadora, aplicativos como Discord e Telegram têm sido utilizados para transmissões ao vivo em que vítimas — muitas vezes meninas — são coagidas a se automutilar ou a agredir seus próprios animais.
“Não temos tempo. Quando pedimos dados às plataformas, a resposta demora. E nesse intervalo, vidas estão em risco — humanas e animais”, afirmou. Segundo ela, os criminosos atuam principalmente aliciando jovens em jogos e redes sociais, utilizando chantagem com imagens íntimas para forçar a prática de violência.
A policial destacou ainda que os autores desses crimes também são, em sua maioria, jovens entre 12 e 21 anos, e que o sadismo contra animais costuma ser uma “porta de entrada” para condutas mais graves, como automutilação, estupro virtual e até ataques a escolas.
Autor do requerimento para a audiência, o deputado Delegado Matheus Laiola (União-PR) apresentou um projeto de lei (PL 1043/2026) que tipifica crimes de crueldade animal cometidos e transmitidos pela internet, além de ampliar as penalidades já existentes. O parlamentar também criticou a postura das plataformas digitais.
“As plataformas demoram dias para responder solicitações que deveriam ser atendidas em minutos. Precisamos avançar na legislação para responsabilizar não só os criminosos, mas também as empresas que permitem esse tipo de conteúdo”, afirmou.
Embora uma lei sancionada em 2020 já preveja punições para maus-tratos, a legislação atual se limita a cães e gatos. A proposta em análise busca ampliar a proteção para todas as espécies e estabelecer regras mais rígidas para empresas de tecnologia.
O debate reforça a urgência de medidas integradas — envolvendo famílias, autoridades e plataformas digitais — para conter um fenômeno que cresce silenciosamente e ameaça extrapolar o ambiente virtual.
Como desdobramento das discussões, o Instituto Ampara Animal lançou uma petição pública vinculada à campanha global Animal Safety, com o objetivo de apoiar o PL 1043/2026 e pressionar plataformas digitais, legisladores e também responsabilizar usuários envolvidos na prática de crimes de crueldade contra animais. A iniciativa busca mobilizar a sociedade para exigir mecanismos mais eficazes de monitoramento, remoção imediata de conteúdos violentos e a adoção de políticas mais rigorosas para coibir esse tipo de prática no ambiente online
Jornalista, radialista e advogado, formado na UFPB, Hermes de Luna tem passagens nos principais veículos de comunicação da Paraíba. É MBA em Marketing Estratégico e em mídias digitais. Apresentador e editor de TV e rádio, também atuou na editoria de portais e sites do estado. Ganhador de vários prêmios de jornalismo, na Paraíba e no Brasil.