Com 35,2 mi de idosos, Brasil acelera apagão de especialistas em saúde
29 de julho de 2026
Redação

O Brasil vive uma das mais rápidas transformações demográficas de sua história. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que a população com 60 anos ou mais cresceu 58,7% entre 2012 e 2025, passando de 22,2 milhões para 35,2 milhões de pessoas. Diante desse cenário, o HCX Fmusp, centro de ensino do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, está com inscrições abertas para a 14ª edição do Curso Intensivo em Geriatria (CIG 2026), que reunirá especialistas para discutir os impactos do envelhecimento populacional na formação médica, no cuidado interdisciplinar e na organização dos serviços de saúde.

“O envelhecimento da população está mudando o perfil dos profissionais que o sistema de saúde precisa formar. Cuidar da pessoa idosa vai além do tratamento de doenças: o profissional precisa compreender como o envelhecimento afeta a capacidade funcional, a autonomia, a cognição e os determinantes sociais que influenciam diretamente a saúde do paciente. Esse olhar amplia a qualidade da assistência e favorece um cuidado integrado, baseado em evidências e centrado nas necessidades da pessoa”, afirma Dra. Flávia Campora, médica supervisora do Serviço de Geriatria do HC FMUSP.

Os impactos dessa mudança já são percebidos na prática assistencial. Segundo o estudo ELSI-Brasil, desenvolvido pela Fiocruz em parceria com o Ministério da Saúde, cerca de 20% dos idosos brasileiros — aproximadamente 6,5 milhões de pessoas — apresentam dificuldades para realizar ao menos uma atividade básica da vida diária. O levantamento também mostra que dois terços dessa população dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS), reforçando a necessidade de profissionais preparados para lidar com condições crônicas, fragilidade, perda de funcionalidade e cuidados de longa duração. 

A formação de especialistas, porém, avança em ritmo inferior ao envelhecimento da população. Dados da Demografia Médica no Brasil mostram que, embora o número de médicos geriatras tenha crescido mais de 380% nas últimas décadas, a oferta desses profissionais ainda é insuficiente para responder ao envelhecimento da população. O desafio agora é ampliar a formação de geriatras e qualificar médicos de diferentes especialidades, além de equipes multiprofissionais que já atuam no atendimento à pessoa idosa.

É nesse contexto que se estrutura a programação do Curso Intensivo em Geriatria (CIG 2026), voltado a médicos, residentes, profissionais da saúde e equipes multiprofissionais que já atuam ou desejam atuar no cuidado à pessoa idosa. Coordenado pelos professores Eduardo Ferrioli, Flávia Campora, Luiz Antonio Gil Junior e Thiago J. Avelino-Silva — referências nacionais em geriatria —, o curso reúne docentes da Faculdade de Medicina da USP e especialistas convidados para discutir como a formação dos profissionais de saúde deve evoluir diante do envelhecimento acelerado da população. A proposta integra experiências consolidadas na prática assistencial do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, o maior complexo hospitalar da América Latina.

Ao longo de quatro dias, a programação combina aulas, workshops, painéis de especialistas e discussão de casos clínicos, abordando temas centrais da geriatria contemporânea, como inteligência artificial aplicada ao cuidado da pessoa idosa, prevenção da fragilidade, saúde hormonal, farmacoterapia para diabetes e obesidade, uso seguro de medicamentos, prevenção de quedas, demências, doença de Parkinson, imunização e novos modelos de cuidado, sempre sob a perspectiva da prática baseada em evidências.

“A formação continuada deixou de ser apenas uma oportunidade de atualização profissional. Ela passou a ser essencial para que o sistema de saúde acompanhe as transformações demográficas do país e responda às necessidades de uma população cada vez mais longeva. Preparar profissionais para essa nova realidade é um dos principais desafios da saúde brasileira”, complementa Patrícia Vale, responsável pela área corporativa e eventos do HCX Fmusp.

Compartilhe: