El Niño acende alerta para energia, agricultura, economia e defesa civil no Brasil
9 de junho de 2026
Redação

As projeções climáticas para a formação de um fenômeno El Niño no segundo semestre de 2026 já mobilizam especialistas, órgãos de monitoramento, governos e setores estratégicos da economia brasileira. A possibilidade de um dos eventos mais intensos das últimas décadas tem provocado discussões sobre seus impactos na segurança energética, na produção agropecuária, na logística, nos preços dos alimentos e até na preparação dos sistemas de proteção e defesa civil.

O tema foi destaque em uma edição do “Bate-Papo com a Defesa Civil”, promovido pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), que reuniu especialistas de instituições como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

Durante o encontro, o coordenador-geral de Monitoramento e Alerta da Sedec, Tiago Schnorr, destacou que os órgãos que compõem o Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil já acompanham diariamente as projeções climáticas para reforçar ações preventivas e de resposta diante dos riscos associados ao fenômeno.

O El Niño integra o chamado El Niño-Oscilação Sul (ENOS), um dos principais mecanismos naturais de variabilidade climática do planeta. O fenômeno ocorre em decorrência do aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, alterando os padrões atmosféricos globais e influenciando diretamente o regime de chuvas e temperaturas em diversas regiões do mundo.

Segundo o coordenador de Monitoramento e Previsão Climática do Inmet, Mozar Salvador, o fenômeno é observado há mais de um século e se caracteriza quando as temperaturas do Pacífico Tropical permanecem pelo menos 0,5°C acima da média durante vários meses consecutivos.

O meteorologista do Grupo de Clima do Inpe, Fábio Rocha, explicou que o aquecimento das águas do Pacífico já está em curso, embora o fenômeno ainda não esteja oficialmente estabelecido. Ainda assim, os modelos climáticos internacionais apontam uma forte tendência de consolidação do evento ao longo dos próximos meses.

As projeções da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) indicam 82% de probabilidade de formação do El Niño entre maio e julho e cerca de 96% de chance de permanência do fenômeno durante o verão de 2026/2027. Parte dos modelos climáticos já considera a possibilidade de um “Super El Niño”, classificação utilizada quando o aquecimento das águas do Pacífico Central e Oriental supera 2°C durante pelo menos três meses consecutivos.

No Brasil, os efeitos costumam ocorrer de forma desigual. Enquanto a Região Sul registra aumento das chuvas, com maior risco de tempestades, enchentes e deslizamentos, as regiões Norte e Nordeste normalmente enfrentam redução das precipitações, estiagens prolongadas e aumento do risco de queimadas.

O coordenador-geral substituto de Operação e Modelagem do Cemaden, Giovanni Dolif, destacou que o Rio Grande do Sul é uma das áreas historicamente mais afetadas. O fenômeno intensifica o transporte de umidade da Amazônia para o Sul do País, favorecendo sistemas de baixa pressão que podem provocar chuvas intensas e inundações.

No Rio Grande do Sul, a Defesa Civil estadual já reforça sua estrutura para enfrentar possíveis eventos extremos. Segundo o coordenador estadual, coronel Luciano Chaves Boeira, o governo gaúcho ampliou equipes técnicas com profissionais das áreas de engenharia, hidrologia, meteorologia, geologia, arquitetura e geoprocessamento para fortalecer a capacidade de prevenção, resposta e apoio aos municípios.

Além dos riscos para a população, o El Niño também começa a preocupar o setor elétrico nacional. O Brasil possui uma matriz energética fortemente dependente da geração hidrelétrica e, por isso, qualquer alteração significativa nos regimes de chuva pode afetar diretamente a produção e o custo da energia.

Embora os reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste operem atualmente próximos de 66% da capacidade, especialistas alertam que a combinação entre redução das afluências, aumento da demanda e temperaturas acima da média pode pressionar o sistema no segundo semestre.

Matheus Machado, especialista em inteligência de mercado do Grupo Bolt, afirma que a tendência é de aumento da utilização das reservas hídricas e maior dependência de usinas termelétricas, elevando os custos de geração.

Segundo ele, o Norte e o Nordeste podem enfrentar secas prolongadas e redução da geração hidrelétrica, enquanto o subsistema Sul, que possui predominância de usinas a fio d’água e menor capacidade de armazenamento, deverá assumir papel mais relevante no equilíbrio energético nacional.

O cenário aumenta o risco de acionamento das bandeiras tarifárias vermelhas e de elevação dos preços da energia elétrica para consumidores residenciais, comerciais e industriais.

Especialistas também observam uma mudança estrutural na forma como o mercado energético avalia riscos. Eventos climáticos extremos passaram a ter peso crescente nas projeções financeiras e operacionais do setor.

Para Philipe Kilzer, diretor de Operações Estruturadas do Grupo Bolt, a energia volta a ocupar posição estratégica nas decisões corporativas. Segundo ele, empresas mais expostas à volatilidade dos preços tendem a ampliar investimentos em autoprodução, contratos de longo prazo e mecanismos de proteção tarifária.

As consequências do fenômeno também podem atingir fortemente a infraestrutura elétrica por meio das queimadas. A Climatempo alerta que o aumento das temperaturas, associado à baixa umidade do ar e aos períodos prolongados de estiagem, pode favorecer a propagação do fogo principalmente nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e parte do Norte do País.

De acordo com Vitor Hassan, Head de Negócios da Climatempo, a experiência recente do El Niño de 2023/2024 mostrou aumento da demanda de energia, maior acionamento de termelétricas e crescimento dos desligamentos provocados por incêndios próximos a linhas de transmissão e distribuição.

As queimadas representam risco operacional significativo, podendo provocar curtos-circuitos, interrupções no fornecimento e danos à infraestrutura. Para reduzir esses impactos, empresas do setor vêm investindo em ferramentas de inteligência climática e monitoramento por satélite, como o sistema CT Merge Fire, desenvolvido para identificar focos de calor e antecipar situações de risco.

Os reflexos do El Niño também devem atingir diretamente o agronegócio, um dos pilares da economia brasileira. Especialistas apontam que as alterações climáticas poderão comprometer a produtividade de diversas culturas agrícolas.

No Sul, o excesso de chuvas pode prejudicar lavouras e favorecer o surgimento de doenças fúngicas. Já no Norte e Nordeste, a escassez de precipitações poderá afetar a disponibilidade hídrica, aumentar o risco de incêndios florestais e reduzir a produtividade agrícola.

No Centro-Oeste, o calor excessivo e a baixa umidade tendem a comprometer pastagens e elevar custos da pecuária. No Sudeste, temperaturas elevadas e irregularidade das chuvas podem impactar culturas estratégicas como café e cana-de-açúcar.

A soja, o milho e o trigo também estão entre as culturas mais vulneráveis. A redução da oferta pode afetar as exportações brasileiras e pressionar os preços internos dos alimentos.

Estudos apontam que períodos de El Niño costumam registrar inflação alimentar significativamente superior à média histórica. Em 2026, algumas projeções indicam aumento de até 15% nos preços de frutas, legumes e hortaliças, além de elevação dos custos de carnes e laticínios.

Os impactos econômicos vão além do campo. A inflação de alimentos e energia tende a pressionar o custo de vida das famílias, afetar a política monetária e aumentar a demanda por medidas de apoio aos setores produtivos mais atingidos.

No comércio eletrônico, empresas especializadas em análise de mercado já projetam mudanças significativas nos hábitos de consumo. Estudos apontam que o calor antecipado pode deslocar a demanda por equipamentos de climatização para meses antes do tradicional período de verão.

Ao mesmo tempo, o aumento do risco de enchentes na Região Sul e de queimadas na Amazônia pode afetar cadeias logísticas e centros de distribuição, exigindo novas estratégias de estoque e transporte.

Diante desse cenário, especialistas defendem que governos, empresas e a sociedade ampliem investimentos em planejamento, monitoramento climático e adaptação. A avaliação predominante é de que o El Niño de 2026 não representa apenas um desafio meteorológico, mas um evento com potencial para impactar simultaneamente energia, agricultura, infraestrutura, logística, inflação e crescimento econômico.

A capacidade de antecipação e resposta poderá ser decisiva para reduzir prejuízos e aumentar a resiliência do País diante de um fenômeno que já começa a influenciar decisões estratégicas em diversos setores da economia brasileira.

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