Estudo aponta que cerca de 40% da Caatinga foi destruída

No próximo dia 28 de abril, é comemorado o Dia Nacional da Caatinga. Mais do que comemoração, a data pede ações urgentes de restauração do bioma. De acordo com dados do Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (Cepan), 37,97% do bioma é ocupado por atividades agrícolas e pastagens, e 59,4% são de floresta, enquanto o restante dos territórios está dividido em outros usos. Os dados também apontam que 20% do bioma está em processo ou suscetível à desertificação. O levantamento, que abrangeu 60 milhões de hectares nos estados do Nordeste e no Norte de Minas Gerais, faz parte da primeira fase do projeto O Papel da Restauração Ecológica na Sustentabilidade da Caatinga, realizado em parceria com o Laboratório de Ecologia Aplicada da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e com professores e pesquisadores convidados de diversas Universidades.



“Esses dados são preocupantes e denotam a importância de criarmos mais unidades de conservação para preservar o que ainda existe e, além disso, estimular as atividades de restauração”, afirma o coordenador de Projetos do Cepan, Joaquim Freitas. À medida que as fronteiras de desertificação avançam, pressionam a população a situações extremas, chegando até à relocação. Segundo os dados do Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas (IPCC), é possível que em cerca de 50 anos, já tenha início um quadro de refugiados do clima. “Esse cenário em que você tem os efeitos prejudiciais das mudanças climáticas agindo no bioma e uma pressão sobre os recursos naturais aliadas a um cenário de desmatamento, que está em avanço na região, demanda urgentemente políticas públicas para a sua resolução”, destaca.

Em relação às Áreas de Preservação Permanente (APPs), localizadas às margens de cursos hídricos, ou seja, áreas protegidas por lei com a função ambiental de preservar os recursos naturais e garantir qualidade de vida à sociedade, o estudo demonstra que apenas 50,3% das regiões que contornam os rios têm cobertura vegetal, enquanto 43,23% estão ocupadas com atividades agropecuárias ilegais. De acordo com o Código Florestal, 100% dessas áreas deveriam estar cobertas por vegetação, pois são elas que asseguram a qualidade dos rios, ajudando a reter sedimentos minimizando os danos causados às calhas. Outros números revelados pelo mapeamento têm relação com as regiões com declividade superior à 45% e as acima de 1800 metros de altitude. Em ambos os casos, a lei preconiza que devem ser 100% florestadas, porém a situação não é esta. No primeiro caso, apenas 50% das áreas estão ainda vegetadas e no segundo, 90%. Sendo que o levantamento abrange cerca de mil hectares de Áreas de Proteção Permanente (APPs) em altitude ao longo de toda a extensão da Caatinga.

Na Caatinga, especialmente, as questões sociais e ambientais se confundem, devido à vulnerabilidade social do bioma. “Quando falamos na Caatinga, estamos nos referindo ao ecossistema semiárido mais populoso do planeta. São cerca de 27 milhões de pessoas morando nessas áreas que, muitas vezes, fazem parte das mais pobres do Brasil e mais carentes de todos os tipos de recursos”, reforça. Nessa direção, a análise utilizou a diretriz Nexus, que trabalha os eixos de sustentabilidade hídrica, alimentar e energética, ajudando a identificar regiões onde as atividades de restauração florestal podem trazer benefícios para essas áreas, beneficiando, inclusive, a população do bioma.  “Os dados são importantíssimos para que atestemos a intrínseca relação entre as atividades de restauração florestal para a garantia da segurança hídrica, energética e alimentar, abordagem fundamental para a garantia de ações executivas no contexto social do semiárido brasileiro”, coloca Severino Ribeiro, diretor – Presidente do Cepan.

A equipe da UFPE, liderada pelo professor Felipe Melo, vai prosseguir o estudo realizando a validação dos dados coletados junto a atores sociais. Em seguida, será feita uma análise de custos e precificação do cenário necessário para restaurar o bioma. O documento servirá como base para permitir a discussão em diversos níveis, a fim de que haja a aplicação de políticas públicas voltadas a recuperar o bioma. “A ideia desse projeto é trazer os primeiros experimentos e modelos de reparação para que tenhamos uma base conceitual e saibamos como efetivamente fazer o trabalho com baixo custo. Ao final, além do documento norteador de políticas públicas, teremos um documento científico e técnico que vai orientar todas as atividades, mostrando as oportunidades identificadas e desafios a serem vencidos”, finaliza Freitas.