A história de Bárbara Penna atravessa uma das páginas mais duras da violência doméstica no Brasil e, ao mesmo tempo, tornou-se símbolo de resistência e mobilização nacional. Sobrevivente de uma tentativa de feminicídio em 2013, Bárbara perdeu os dois filhos e um vizinho em um incêndio criminoso provocado pelo ex-companheiro. Após meses em coma, ela seguiu vivendo com sequelas físicas e emocionais profundas — marcas que hoje impulsionam uma das maiores mobilizações já registradas no país em defesa da proteção às mulheres.
Da dor extrema nasceu o ativismo. A trajetória de Bárbara transformou-se no ponto de partida de um abaixo-assinado que pede a reformulação total da Lei Maria da Penha. A campanha já ultrapassou a marca de 1 milhão de assinaturas verificadas, consolidando-se como um movimento nacional que reúne sobreviventes, familiares de vítimas, especialistas e cidadãos mobilizados contra a violência de gênero.
“Cada assinatura é um abraço, mas também um grito dizendo ‘basta’. Não vejo um milhão como um número, vejo vidas e vozes comigo nessa luta”, resume Bárbara, ao traduzir o sentimento que ecoa entre milhares de mulheres brasileiras. Segundo ela, o abaixo-assinado “nasceu da dor” não apenas da sua própria história, mas de famílias que perderam mulheres e crianças para a violência doméstica e de sobreviventes que, mesmo após denunciar, seguem desamparadas pelo Estado.
Para Bárbara, alcançar um milhão de assinaturas é a prova de que “a sociedade está cansada de perder mulheres todos os dias” e de que a mobilização não é em vão. Ela afirma que já prepara, “com responsabilidade e coragem”, os próximos passos para que as propostas avancem no Congresso Nacional e se transformem em políticas públicas efetivas.
Propostas ganham força e viram pauta nacional
O abaixo-assinado reúne mudanças consideradas essenciais por sobreviventes e especialistas, entre elas a retirada do endereço da vítima dos boletins de ocorrência, a presença obrigatória de psicólogos nas delegacias da mulher, a construção de Casas da Mulher Brasileira em todos os estados e o monitoramento eletrônico de agressores por meio de tornozeleiras. Também estão entre as propostas a criação de um aplicativo nacional de acompanhamento das vítimas, o ressarcimento financeiro às mulheres após condenação do agressor, a responsabilização de testemunhas que se omitirem diante de agressões e a manutenção das medidas protetivas até o fim do processo criminal.
As sugestões chegaram ao Congresso como um alerta de que a legislação atual, apesar dos avanços, não tem sido suficiente para conter a escalada da violência. Casos de mulheres assassinadas mesmo após registrarem denúncias e solicitarem proteção seguem se repetindo em todo o país.
Crescimento dos feminicídios reforça urgência
O debate ganhou ainda mais força diante dos números recentes. O Brasil registrou 1.450 feminicídios em 2024, mantendo-se entre os países que mais matam mulheres por motivação de gênero. Em 2025, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, já são mais de mil casos contabilizados.
Para Change.org Brasil, a mobilização reflete uma busca coletiva por justiça. “Somos um espaço onde mulheres também buscam por justiça e apoio”, afirma Monica Souza, diretora da plataforma no país. A campanha segue crescendo, impulsionada por debates sobre violência psicológica, reincidência de agressores, falhas no atendimento às vítimas e a necessidade de respostas mais eficazes do poder público.
Presente no Brasil desde 2012, a Change.org é a maior plataforma de abaixo-assinados do mundo, com mais de 34 milhões de usuários no país e milhares de campanhas que resultaram em mudanças concretas. No caso liderado por Bárbara Penna, a mobilização transforma uma história de dor extrema em um movimento coletivo que pressiona por mudanças estruturais e reafirma o direito das mulheres à vida e à proteção.
Jornalista, radialista e advogado, formado na UFPB, Hermes de Luna tem passagens nos principais veículos de comunicação da Paraíba. É MBA em Marketing Estratégico e em mídias digitais. Apresentador e editor de TV e rádio, também atuou na editoria de portais e sites do estado. Ganhador de vários prêmios de jornalismo, na Paraíba e no Brasil.