Medo do crime organizado enfraquece o caixa do varejo brasileiro, mostra estudo
22 de junho de 2026
Redação

O crime organizado deixou de ser apenas uma pauta de segurança pública e se tornou uma linha de custo oculta no balanço do varejo brasileiro. É essa a conclusão central do relatório “O Custo Oculto da Bala”, divulgado pelo IBEVAR-FIA Business School. 

O estudo cruza mais de uma década de notícias sobre violência com dados de vendas e ocorrências criminais no Estado de São Paulo e Brasil e chega a uma frase que resume o diagnóstico: “a insegurança deixou de ser um problema social para se tornar um imposto invisível sobre o faturamento”. 

Os números expõem a dimensão do problema. Para 58% da população, a criminalidade já é o principal problema do país — e essa percepção tem preço. Um terço dos empresários do varejo (33%) relata queda direta e imediata no número de clientes físicos; 13% dos negócios registraram migração forçada de vendas presenciais para o delivery, por medo do cliente de sair de casa; e 25% precisaram restringir o horário de funcionamento só para evitar a exposição noturna. 

O dado mais provocador do relatório é: o varejo brasileiro paga pela violência duas vezes, em momentos diferentes. A primeira fatura é emocional e imediata — vem da notícia, não do crime em si. Segundo o modelo econométrico do estudo, cada aumento relevante na cobertura jornalística sobre roubos e furtos provoca retração de vendas estatisticamente significativa já no mês em que a notícia é publicada (β = -0,24; p = 0,008), efeito que se mantém no mês seguinte (β = -0,28; p = 0,03). “O cliente cancela o plano de consumo no dia em que vê a manchete”, resume o relatório, remetendo ao viés da disponibilidade — o mecanismo psicológico, bem documentado na economia comportamental, pelo qual o público avalia o risco com base na facilidade com que exemplos de violência vêm à mente. 

A segunda fatura é estrutural e tardia, mas igualmente significativa. O crime registrado no bairro não abate as vendas no mesmo mês — ele planta uma retração que só aparece a partir do quarto mês e se intensifica de forma contínua: o coeficiente passa de -0,18 no sexto mês para -0,22 no oitavo e -0,25 no décimo, todos com significância estatística abaixo de 1%. “O crime é uma ferida que piora com o tempo”, diz o estudo. Entre 2012 e 2015, o volume de notícias sobre roubos e furtos cresceu 81% — e, desde então, se cristalizou em um platô de quase mil matérias por ano, garantindo que a percepção de risco nunca recue, mesmo quando a curva de ocorrências oscila. 

O varejo muda a própria engenharia para sobreviver 

Diante desse cenário, lojistas brasileiros estão redesenhando a operação do negócio em torno do medo: alterando layout, deslocando o fluxo de caixa para o delivery e cortando horários — uma resposta defensiva que, segundo os pesquisadores, tem custo de oportunidade tão real quanto qualquer imposto formal. 

O relatório também situa o caso brasileiro dentro da literatura internacional. Nos Estados Unidos, pesquisas em Urban Studies associam surtos de homicídio ao fechamento de negócios locais e ao êxodo de lojas e serviços de bairros afetados. No México, estudos sobre a guerra às drogas relacionam a violência à redução da oferta de mão de obra local e a quedas dramáticas no consumo de energia — termômetro da retração produtiva. Na Colômbia, a extorsão de organizações criminosas impõe o que pesquisadores chamam de “custo duplo”: gasto com segurança privada somado à limitação forçada de clientes. A conclusão dos autores brasileiros dialoga diretamente com esse corpo de evidências: “A violência urbana não apenas mata pessoas, ela mata negócios: fecha lojas, afasta clientes e comprime faturamentos”, afirma Claudio Felisoni, Presidente do IBEVAR e Professor da FIA Business School. 

O relatório vai além do ciclo crime–mídia–consumo e aponta uma terceira variável, mais difícil de reverter: a infiltração de organizações criminosas no próprio aparato estatal. Para os autores, é esse fator que explica por que os números de violência não recuam de forma sustentável — a força que os gera deixou de ser um problema estritamente de rua. O resultado é o que o estudo chama de “retrato final”: o varejo brasileiro paga três contas simultâneas — a da manchete (impacto imediato da percepção de risco), a do bairro (corrosão de caixa com defasagem) e a da instituição (a corrosão da esperança de solução, à medida que o crime se entranha no Estado). “A violência transformou a insegurança de um mero risco social em um imposto implacável e invisível sobre todos que tentam vender no Brasil”, reforça Felisoni 

NOTA METODOLÓGICA 

“O Custo Oculto da Bala” é um relatório analítico de impacto econômico assinado pelo IBEVAR e pela FIA Business School, divulgado em junho de 2026. A equipe técnica é formada pelos professores doutores Claudio Felisoni de Angelo, Carlos Eduardo Furlanetti, Nuno Manoel Martins Dias Fouto e Marcelo Felippe Figueira Jr., com a colaboração de Arthur Siqueira Ferrari. 
 
Sobre o IBEVAR – O IBEVAR –Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo é referência em pesquisas e conteúdos sobre Varejo e Consumo e principal plataforma de relacionamento de executivos do setor. Realiza mais de 40 pesquisas periódicas anuais que contribuem com o mapeamento do setor, como projeções relacionadas a vendas e intenção de compra, inflação e inadimplência, além de realizar pesquisas de tendências das principais datas sazonais e comemorativas do Varejo e de proporcionar a capacitação contínua de profissionais do setor por meio de parcerias educacionais. Fundado em 2009, a organização, que reúne mais de 19 mil associados e tem como missão ser uma Instituição que congregue executivos e executivas de varejo, indústria e serviços, promovendo relacionamento profissional e social aos executivos que atuam direta ou indiretamente no mercado de varejo e consumo no Brasil. Nesse sentido, além de celebrar junto ao mercado o reconhecimento às empresas posicionadas no Ranking anual IBEVAR – FIA em variadas categorias do varejo, desenvolveu também o Prêmio de Inovação para estimular a criação de projetos inovadores e apresentar ao mercado soluções para os desafios do Varejo. E ainda, cria debates relevantes e networking de alto nível nos Encontros Temáticos e Encontros com Varejistas, eventos que acontecem periodicamente ao longo do ano.    

Sobre a FIA Business School — Fundada em 1980 por professores da FEA-USP, a FIA Business School é referência em educação, consultoria e pesquisa aplicada, conectando conhecimento acadêmico às demandas reais do mercado e da sociedade. Reconhecida nacional e internacionalmente, possui acreditações globais como AMBA, EFMD e BGA, além do selo BSIS Impact, que certifica escolas de negócios com impacto comprovado no desenvolvimento econômico e social. Sua graduação em Administração é destaque nacional, com nota máxima no ENADE e reconhecimento recorrente entre os melhores cursos do país. Com mais de 150 mil alunos formados e 12 mil projetos realizados, a FIA Business School forma líderes capazes de pensar criticamente e agir com impacto. 

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