As recentes tensões comerciais envolvendo os Estados Unidos e a imposição de novas tarifas sobre produtos importados reacenderam um debate que há décadas acompanha a economia brasileira: qual deve ser a posição do Brasil no comércio internacional? A resposta não pode limitar-se à adoção de medidas de reciprocidade comercial, embora estas sejam legítimas quando observados os acordos internacionais e o interesse nacional. O verdadeiro desafio consiste em aproveitar esse momento para reposicionar o Brasil nas Cadeias Globais de Valor (CGV), transformando uma conjuntura adversa em oportunidade estratégica de desenvolvimento.
Nas últimas décadas, o Brasil consolidou-se como uma das maiores potências agropecuárias do planeta. Lidera ou figura entre os maiores produtores e exportadores mundiais de soja, milho, carnes, café, açúcar, celulose, algodão e diversas frutas tropicais. Contudo, uma parcela significativa dessas exportações ainda é composta por produtos com baixo grau de processamento. Em muitos casos, a maior parte da riqueza é gerada após a saída desses produtos do território brasileiro, quando são industrializados, transformados, embalados, comercializados sob marcas globais e distribuídos em mercados consumidores de alto poder aquisitivo.
Essa realidade explica por que países que produzem menos alimentos conseguem capturar parcelas significativamente maiores da renda gerada pelo agronegócio mundial. O valor agregado não está apenas na produção agrícola, mas na pesquisa, na inovação, na transformação industrial, na logística, na inteligência de mercado, na propriedade intelectual, nas marcas e nos serviços associados aos produtos.
O conceito de Cadeias Globais de Valor evidencia justamente essa dinâmica. A competitividade contemporânea não depende apenas da capacidade de produzir, mas da capacidade de participar das etapas mais sofisticadas da cadeia produtiva. Países que dominam tecnologia, design, biotecnologia, certificações, processamento industrial e canais internacionais de comercialização apropriam-se da maior parte do valor econômico gerado.
Embora o Brasil tenha ampliado sua competitividade agrícola de forma extraordinária nas últimas décadas, sua inserção nas Cadeias Globais de Valor ainda permanece aquém do potencial econômico, científico e empresarial construído pelo país. Trata-se de um desafio que exige políticas públicas permanentes, segurança jurídica, infraestrutura moderna e uma visão estratégica de longo prazo.
É nesse contexto que a discussão sobre reciprocidade comercial ganha relevância. A eventual adoção de medidas tarifárias por parceiros comerciais deve ser enfrentada com equilíbrio, firmeza e inteligência econômica. A reciprocidade constitui instrumento legítimo de defesa dos interesses nacionais, desde que utilizada de maneira técnica, proporcional e compatível com os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil. Entretanto, limitar a resposta brasileira à simples elevação de tarifas significaria desperdiçar uma oportunidade histórica.
A verdadeira resposta estratégica consiste em ampliar a competitividade nacional por meio da agregação de valor às exportações. O objetivo deve ser reduzir gradualmente a dependência da venda de produtos primários, ampliando a participação de alimentos industrializados, ingredientes alimentares, biocombustíveis, etanol de segunda geração, bioplásticos, produtos da química verde, fertilizantes organominerais, genética animal, máquinas agrícolas, softwares para agricultura de precisão, bioinsumos e soluções desenvolvidas a partir da biodiversidade brasileira.
O agronegócio contemporâneo deixou de ser apenas agricultura e pecuária. Hoje representa um complexo sistema econômico que integra pesquisa científica, assistência técnica, produção rural, indústria de transformação, logística, armazenagem, transporte, comércio exterior, serviços financeiros, seguros, cooperativismo, inovação tecnológica, inteligência artificial e sustentabilidade ambiental. Quanto maior a integração entre esses segmentos, maior será a participação brasileira nas etapas de maior valor agregado das cadeias produtivas internacionais.
Nesse cenário, o Nordeste brasileiro reúne condições excepcionais para assumir papel de maior protagonismo. A região dispõe de ampla diversidade climática, crescente infraestrutura logística, expansão da irrigação, disponibilidade de energias renováveis e um conjunto de instituições de pesquisa capazes de impulsionar uma nova etapa de desenvolvimento agroindustrial.
A Paraíba representa um exemplo particularmente promissor. O Estado reúne potencial para ampliar significativamente sua participação nas exportações por meio da industrialização de frutas, derivados da cana-de-açúcar, cachaças premium, produtos lácteos bovinos e caprinos, genética animal, pescado cultivado, mel, derivados do coco, produtos orgânicos, bioinsumos e alimentos de maior valor agregado. A integração logística com grandes corredores ferroviários, como a Transnordestina, associada à modernização dos portos nordestinos, poderá reduzir custos, ampliar competitividade e aproximar o Estado dos grandes mercados internacionais.
Entretanto, infraestrutura, isoladamente, não basta. É indispensável fortalecer instituições de pesquisa, ampliar investimentos em ciência e tecnologia, estimular a inovação empresarial, consolidar programas de agricultura de baixo carbono, expandir a assistência técnica, incentivar a agroindustrialização e promover maior integração entre universidades, centros de pesquisa, cooperativas, setor produtivo e governos. Essa articulação permitirá que o conhecimento produzido no país seja convertido em riqueza, empregos qualificados e aumento das exportações de maior conteúdo tecnológico.
Outro aspecto fundamental consiste na ampliação dos acordos comerciais e na diversificação dos mercados consumidores. A crescente demanda por alimentos na Ásia, no Oriente Médio e na África oferece oportunidades extraordinárias para produtos brasileiros. Ao mesmo tempo, mercados tradicionais, como Estados Unidos e União Europeia, continuarão relevantes, exigindo do Brasil elevado padrão sanitário, rastreabilidade, sustentabilidade e inovação permanente.
A discussão sobre reciprocidade comercial deve, portanto, ser compreendida como parte de uma estratégia mais ampla de fortalecimento da soberania econômica brasileira. Um país torna-se menos vulnerável às oscilações do comércio internacional quando diversifica mercados, amplia sua base industrial, investe em inovação e ocupa posições de maior valor nas cadeias produtivas globais.
O Brasil possui recursos naturais, capacidade empresarial, excelência científica, empreendedorismo rural e competência técnica suficientes para realizar essa transformação. O desafio não é produzir mais commodities, mas transformar conhecimento em riqueza, inovação em competitividade e produção em desenvolvimento sustentável.
As tarifas comerciais podem impor dificuldades conjunturais. A agregação de valor, por sua vez, cria vantagens permanentes. A reciprocidade comercial protege interesses imediatos; a inovação fortalece a economia nacional por gerações. O verdadeiro caminho para consolidar o protagonismo brasileiro não reside apenas em responder às barreiras impostas por outros países, mas em construir uma economia capaz de competir nas etapas mais sofisticadas das Cadeias Globais de Valor, convertendo a extraordinária vocação agropecuária do Brasil em liderança industrial, tecnológica e exportadora.
____________
Por Rômulo Montenegro
Advogado, professor universitário, produtor rural, ex-Secretário de Estado da Agricultura e da Pesca da Paraíba, ex-Presidente do Conselho Nacional dos Secretários de Agricultura (CONSEAGRI), consultor empresarial e Diretor Regional da Academia Latino-Americana do Agronegócio (ALAGRO).
Jornalista, radialista e advogado, formado na UFPB, Hermes de Luna tem passagens nos principais veículos de comunicação da Paraíba. É MBA em Marketing Estratégico e em mídias digitais. Apresentador e editor de TV e rádio, também atuou na editoria de portais e sites do estado. Ganhador de vários prêmios de jornalismo, na Paraíba e no Brasil.