Para 93% dos brasileiros, segurança pública será decisiva nas eleições, aponta pesquisa
20 de agosto de 2026
Redação

A segurança pública tende a ocupar um lugar central na disputa eleitoral de 2026. Para 93% dos brasileiros ouvidos em pesquisa do Instituto Update e do Instituto Fogo Cruzado, o tema será importante na avaliação de candidaturas e propostas. Entre as mulheres, que formam a maioria do eleitorado, a insegurança assume dimensões específicas e interfere diretamente na rotina, na circulação e no acesso a oportunidades.

A pesquisa mostra que 92% da população concorda que as mulheres estão expostas a riscos que os homens não correm, enquanto 83% consideram alta ou muito alta a gravidade da violência contra a mulher em sua cidade.

Na experiência cotidiana, o impacto vai além da violência doméstica. Entre as mulheres, 79% sentem medo de sair à noite, 59% já deixaram de frequentar determinados lugares por insegurança e 31,4% deixaram de utilizar algum meio de transporte pelo mesmo motivo. Ônibus, metrôs, trens, pontos de espera e corridas por aplicativo aparecem entre os espaços percebidos como mais inseguros. No levantamento quantitativo, 39% das mulheres dizem se sentir inseguras no transporte público, ante 26% dos homens.

Nos grupos qualitativos, participantes relataram mudar trajetos, evitar determinados horários e, em alguns casos, recusar oportunidades de trabalho ou estudo quando o deslocamento exigia sair cedo, voltar tarde ou passar por áreas consideradas perigosas.

“Quando uma mulher deixa de aceitar um trabalho, usar transporte público, frequentar lugares ou sair à noite por medo da violência, a insegurança passa a definir os limites da sua rotina. É nesse sentido que dizemos que o medo encolhe o mundo das mulheres. Segurança pública também trata da liberdade concreta de circular, trabalhar, estudar, cuidar e participar da vida pública”, afirma Carol Althaller, diretora executiva do Instituto Update.

Segurança entra na eleição com demanda por respostas

A pesquisa também mostra uma tensão importante para a campanha eleitoral. Penas mais duras aparecem em primeiro lugar entre as prioridades em segurança, mencionadas por 42% dos entrevistados. Ao mesmo tempo, apenas 41% acreditam que a polícia de fato protege a população, e só 22% percebem melhora da segurança depois de operações policiais.

Quando diferentes caminhos são avaliados separadamente, as distâncias diminuem. 49% consideram que prender pessoas ajuda consideravelmente ou totalmente a reduzir a violência, enquanto 45% dizem o mesmo sobre investimentos em educação e políticas sociais.

Os resultados indicam uma população que cobra resposta imediata diante da violência, mas que não demonstra confiança plena na capacidade das estratégias tradicionais de produzir segurança duradoura.

“Os dados mostram que o repertório da população sobre segurança pública ainda é muito restrito. As soluções apontadas pelos entrevistados giram em torno de alternativas individuais e penas mais duras. Só que essas penas não atuam na prevenção, tampouco reduzem o medo. Faltam ideias relacionadas a políticas públicas e esse é o caminho para um melhor debate sobre segurança no país”, afirma Maria Isabel Couto, diretora de dados e transparência do Instituto Fogo Cruzado.

Mulheres também querem participar da definição das respostas

A pesquisa indica ainda que as mulheres não se reconhecem apenas como destinatárias de políticas de segurança. 70% das entrevistadas concordam total ou parcialmente que as mulheres têm melhores ideias para a segurança pública, percepção compartilhada por apenas 13% dos homens.

Nos grupos qualitativos, apareceram propostas como melhoria da iluminação e do transporte, cuidado com áreas abandonadas, educação, prevenção à violência de gênero e fortalecimento das redes comunitárias.

“Quando as mulheres falam sobre o tema, aparecem dimensões que muitas vezes ficam fora do centro do debate: o caminho até o trabalho, o ponto de ônibus, a rua sem iluminação, o cuidado com os filhos, o medo de voltar para casa, a rede de vizinhas, amigas e familiares. Isso não substitui outras respostas de segurança, mas mostra que proteger a população também passa por garantir condições reais de circulação, convivência e participação na cidade”, completa Carol Althaller.

Um tema central da disputa eleitoral

Com a campanha em curso, os dados ganham uma leitura diretamente eleitoral. Se 93% da população considera a segurança pública importante nas eleições, as candidaturas terão de responder a uma preocupação que aparece em todos os recortes da pesquisa — e que, entre as mulheres, envolve não só violência, mas também circulação, trabalho, transporte e uso da cidade.

Para o Instituto Update, observar a disputa pelo eleitorado feminino exige olhar também para as grandes agendas nacionais. Segurança pública é uma delas: diferentes propostas podem dialogar de maneiras muito distintas com experiências concretas que já condicionam a vida cotidiana das mulheres.

Sobre a pesquisa

A etapa quantitativa foi conduzida pelo IDEIA – Instituto de Pesquisa e ouviu 2 mil pessoas com 16 anos ou mais, residentes em todas as regiões do Brasil, entre 24 e 31 de março de 2026. A amostragem foi feita por cotas proporcionais segundo sexo, faixa etária e distribuição regional, com referência na PNAD Contínua 2025 e no Censo Demográfico de 2022. A margem de erro máxima é de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.

A etapa qualitativa, realizada com apoio da Estratégia Latina, foi dividida em duas trilhas: uma sobre segurança e mulheres, formada exclusivamente por participantes do sexo feminino, e outra sobre segurança e violência armada, com grupos separados de homens e mulheres em diferentes capitais brasileiras.

Sobre o Instituto Update

O Instituto Update é uma organização liderada por mulheres que tem como objetivo impulsionar a participação política e fortalecer a qualidade das democracias, promovendo sistemas mais representativos, inclusivos e responsivos para todas as pessoas. Atuamos como uma plataforma regional de inovação política no Sul Global, conectando lideranças, fortalecendo redes e produzindo conhecimento para ampliar e garantir a participação política de mulheres diversas que lideram agendas democráticas.

Sobre o Instituto Fogo Cruzado

O Fogo Cruzado é um Instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida. Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 50 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife, de Salvador e de Belém. Por meio de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado recebe e disponibiliza informações sobre tiroteios, checadas em tempo real, que estão no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto

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