Na Paraíba, os registros policiais mais recentes reforçam o alerta revelado pela pesquisa de percepção do DataSenado.
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública com dados referentes a 2025, mostra que o estado registrou 36 feminicídios no ano passado, contra 26 em 2024. O crescimento foi de 37,8% em apenas um ano.
Com isso, os feminicídios passaram a representar 47,4% de todos os homicídios de mulheres registrados na Paraíba. Em 2024, essa participação havia sido de 38,8%. Ou seja, quase metade das mulheres assassinadas no estado em 2025 foi vítima de crime motivado pela condição de gênero.
A taxa paraibana chegou a aproximadamente 1,7 feminicídio para cada 100 mil mulheres, acima da taxa nacional de 1,4. O crescimento ocorre em sentido contrário à redução geral das mortes violentas observada no país. Em 2025, o Brasil registrou 1.571 feminicídios, uma média superior a quatro vítimas por dia e alta de cerca de 4% sobre o ano anterior.
As tentativas de feminicídio apresentaram comportamento diferente na Paraíba: passaram de 36 casos em 2024 para 35 em 2025, pequena redução de 3,2%.
VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA CRESCE 41%
Um dos indicadores que mais avançaram na Paraíba foi o de violência psicológica contra a mulher.

Foram 715 registros em 2025, contra 504 no ano anterior, crescimento de 41,2%. A taxa passou de 23,6 para 33,3 vítimas por 100 mil mulheres.
Esse tipo de crime inclui situações que nem sempre são imediatamente identificadas pelas vítimas como violência, como humilhação, manipulação, chantagem, isolamento, constrangimento, controle de comportamentos e decisões e limitação do direito de ir e vir.
Os números paraibanos, portanto, dialogam diretamente com a principal conclusão do novo Mapa Nacional: uma parcela expressiva das agressões ocorre sem que a própria vítima consiga inicialmente nomear aquilo que está vivendo como violência.
STALKING CRESCE QUASE 40%
Outro avanço expressivo ocorreu nos registros de stalking, crime caracterizado pela perseguição reiterada da vítima.
A Paraíba passou de 1.534 ocorrências em 2024 para 2.147 em 2025, crescimento de 39,3%. A taxa subiu de 71,7 para 99,9 casos por 100 mil mulheres.
O stalking pode ocorrer presencialmente ou por meios digitais e envolve perseguições capazes de ameaçar a integridade física ou psicológica da vítima, restringir sua liberdade ou invadir sua privacidade.
MEDIDAS PROTETIVAS TAMBÉM SÃO DESRESPEITADAS
Outro indicador considerado importante para medir o risco de escalada das agressões também piorou.
Os casos de descumprimento de medidas protetivas de urgência cresceram 18,7% na Paraíba, passando de 1.397 registros em 2024 para 1.666 em 2025. O crescimento paraibano ficou acima da média nacional, de 16,7%.
O dado é especialmente relevante porque a violação de uma medida protetiva pode sinalizar a continuidade do ciclo de violência e o risco de agravamento das agressões.
O Anuário aponta ainda que os registros de lesão corporal em contexto de violência doméstica chegaram a 1.435 casos na Paraíba em 2025, crescimento de 4,3%. Já os crimes de estupro e estupro de vulnerável com vítimas do sexo feminino somaram 1.216 ocorrências, aumento de 17,7%. Foram registrados ainda 430 casos de importunação sexual e 102 de assédio sexual.
Entre os indicadores analisados, houve redução nas ameaças: foram 11.577 registros em 2025, queda de 1,4% em relação ao ano anterior.
2026 COMEÇA COM REDUÇÃO DOS FEMINICÍDIOS
Os dados mais recentes da Secretaria da Segurança e da Defesa Social apontam uma melhora parcial no primeiro semestre de 2026.
Entre janeiro e junho, 19 mulheres foram vítimas de feminicídio na Paraíba, contra 22 no mesmo período de 2025, redução de 13,6%. No total, foram registrados 36 Crimes Violentos Letais Intencionais contra mulheres nos seis primeiros meses deste ano. Dos 223 municípios paraibanos, 197 — 88,3% do total — não tiveram mortes violentas de mulheres no período.
Apesar da redução registrada neste ano, o patamar permanece elevado: foram, em média, mais de três feminicídios por mês no estado durante o primeiro semestre.
Jornalista, radialista e advogado, formado na UFPB, Hermes de Luna tem passagens nos principais veículos de comunicação da Paraíba. É MBA em Marketing Estratégico e em mídias digitais. Apresentador e editor de TV e rádio, também atuou na editoria de portais e sites do estado. Ganhador de vários prêmios de jornalismo, na Paraíba e no Brasil.