Com o início oficial das campanhas eleitorais, a identidade evangélica passou a ocupar de forma ainda mais explícita a disputa política nas redes sociais. Além da mobilização de candidaturas e do crescimento de conteúdos voltados diretamente às eleições, aumentaram os embates sobre quem pode falar em nome e representar o chamado “voto cristão”. Ao mesmo tempo, lideranças políticas de direita seguem concentrando a maior parte do engajamento no ecossistema monitorado.
Os dados são da sexta edição do relatório “Narrativas Evangélicas e Contexto Eleitoral”, produzido pela Casa Galileia em parceria com o Instituto Democracia em Xeque. O levantamento acompanha publicações realizadas entre 3 e 16 de agosto e analisou conteúdos de 573 perfis de lideranças políticas e religiosas, organizações, veículos e influenciadores evangélicos no Instagram, YouTube, X, TikTok e Facebook. O relatório completo está disponível em https://casagalileia.org/
No período, foram identificados 19.429 conteúdos, que somaram cerca de 135,4 milhões de interações no universo monitorado.
“Mais do que mostrar quais nomes estão mobilizando mais atenção, o monitoramento revela uma disputa sobre o próprio significado político da identidade evangélica. À medida que a campanha avança, cresce também a tentativa de definir quem pode falar em nome dos cristãos, quais valores seriam considerados legítimos e quais atores devem ser reconhecidos ou excluídos desse campo”, afirma Flávio Conrado, diretor de Campanhas da Casa Galileia.
Entre as lideranças políticas, a concentração de engajamento à direita se acentuou com o lançamento das candidaturas. Flávio Bolsonaro (PL-RJ) liderou o ranking por número total de interações, com 9,58 milhões, seguido por Nikolas Ferreira (PL-MG), com 6,02 milhões. Eduardo Bolsonaro (PL-SP) aparece na terceira posição, com 2,89 milhões. Considerando uma única publicação, um vídeo de lançamento da candidatura de Nikolas Ferreira (PL-MG) ultrapassou 3,2 milhões de interações.
O relatório identifica, porém, novos movimentos dentro do próprio campo evangélico. Pela primeira vez, Benedita da Silva (PT-RJ) aparece entre as lideranças políticas de maior engajamento no levantamento. Entre os perfis associados à esquerda evangélica, as 50 publicações de maior engajamento somaram 2,23 milhões de interações. Além de Benedita, aparecem com destaque Carlos Bezerra Jr. (PSD-SP), André Janones (Avante-MG), Marina Silva (Rede-SP), Henrique Vieira (PSOL-RJ) e Aava Santiago (PSB-GO).
A análise aponta uma mudança no comportamento desses perfis. Se antes parte importante da atuação estava concentrada na interpretação da conjuntura política, nesta quinzena cresceram os conteúdos de mobilização eleitoral direta, com apresentação de candidaturas, pedidos de voto e associação entre fé, democracia, justiça social, proteção das famílias e combate ao fundamentalismo.
Quem pode falar em nome dos evangélicos?
O início das campanhas também intensificou uma disputa menos visível nos números, mas central nas narrativas analisadas: a definição de quem pode reivindicar legitimamente uma identidade cristã na política.
João Campos (PSB-PE), Eliziane Gama (PSD-MA) e o cantor Kleber Lucas, por exemplo, foram alvo de publicações que questionavam sua identidade religiosa ou os classificavam como oportunistas e “falsos cristãos”. Segundo o relatório, a identidade evangélica passa a funcionar não apenas como elemento de mobilização eleitoral, mas também como mecanismo para legitimar ou excluir atores da disputa política.
As tensões aparecem dentro da própria direita evangélica. Após anunciar o movimento “Direita com Lula”, o pastor e candidato a deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ) passou a ser atacado por atores do campo conservador com acusações de apostasia, traição aos valores cristãos e aproximação com o socialismo.
“O que aparece nas redes é um campo evangélico em movimento, atravessado por disputas de representação, diferenças políticas e tentativas concorrentes de definir quais valores e lideranças podem falar em nome da fé. A força da direita nas métricas de engajamento convive com fissuras internas e com a entrada mais explícita de outros atores na disputa eleitoral. É justamente essa dinâmica que o monitoramento busca acompanhar”, explica Flávio Conrado.
Infância, Bolsonaro e desinformação também mobilizam as redes
Entre os outros temas que ganharam força na quinzena, a proteção de crianças e adolescentes mobilizou perfis de diferentes posições políticas, com enquadramentos distintos sobre direitos, segurança pública e responsabilização.
O monitoramento também identificou a circulação de informação falsa que relacionava o assassinato de duas crianças à saída temporária de presos no Dia dos Pais, mesmo após a associação ter sido desmentida pela imprensa.
O Dia dos Pais, por sua vez, foi usado por perfis da direita evangélica para reforçar a narrativa de Jair Bolsonaro (PL) como vítima de injustiça, aproximando referências à família e à justiça divina de acusações de abuso de poder.
Entre as estratégias de desinformação, o relatório destaca ainda uma imagem produzida por inteligência artificial que apresenta Lula (PT) preso e alimentou especulações sobre uma possível intervenção dos Estados Unidos nas eleições brasileiras. O período também registrou o crescimento de conteúdos anti-Islã, com narrativas sobre uma suposta “islamização” do Brasil e ameaças à liberdade religiosa. Nas pautas de gênero, o monitoramento identificou uma inflexão importante entre lideranças conservadoras: referências tradicionais à família e aos papéis de gênero passaram a conviver com rejeições mais explícitas à violência, à coerção e à submissão feminina. Esses e os demais achados da quinzena estão detalhados no relatório completo.
Monitoramento quinzenal
Esta é a sexta edição de uma série quinzenal que seguirá acompanhando, ao longo da campanha de 2026, as narrativas, os atores e as disputas que ganham força nas fronteiras entre religião e política no ecossistema evangélico.
Os cinco relatórios anteriores, publicados desde maio, também estão disponíveis na página do projeto. As edições já acompanharam temas como a força do bolsonarismo no engajamento digital evangélico e a Marcha para Jesus; a reação à Carta do PT aos Evangélicos, aborto, homeschooling e ataques a pessoas trans; a disputa pela sucessão de Jair Bolsonaro (PL) entre Michelle e Flávio e narrativas de perseguição religiosa; debates sobre laicidade do Estado, misoginia e ampliação do alcance da esquerda evangélica; e, na edição mais recente antes desta, a retomada de desinformações sobre a pandemia, o avanço do anti-lulismo, segurança pública e o início explícito da mobilização eleitoral religiosa.
Jornalista, radialista e advogado, formado na UFPB, Hermes de Luna tem passagens nos principais veículos de comunicação da Paraíba. É MBA em Marketing Estratégico e em mídias digitais. Apresentador e editor de TV e rádio, também atuou na editoria de portais e sites do estado. Ganhador de vários prêmios de jornalismo, na Paraíba e no Brasil.