Um novo levantamento nacional conduzido pela Fundação Perseu Abramo em parceria com o Sesc São Paulo traça um retrato detalhado das mulheres brasileiras — suas percepções sobre democracia, desigualdades, violência, participação política e papel social. A pesquisa “Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado”, apresentada em São Paulo, revela um forte alinhamento feminino à democracia, valorização da diversidade e rejeição majoritária à interferência religiosa nas decisões políticas.
Esta é a terceira edição do estudo — as anteriores ocorreram em 2001 e 2010 — e foi realizada ao longo de 2023, com 2.440 entrevistas com mulheres e 1.221 com homens, além de uma fase qualitativa com 65 mulheres cis e trans. Foram analisados seis eixos: cultura política e participação; imagem da mulher; corpo, sexualidade e saúde; violência; proteção social e política de cuidados; e trabalho remunerado e não remunerado.
Democracia e Diversidade
A defesa da democracia é clara: 59% das mulheres a consideram a melhor forma de governo, contra apenas 4% que preferem a ditadura. No campo eleitoral, há uma inclinação pela representatividade. Quase 9 em cada 10 mulheres (89%) dizem preferir votar em candidatas mulheres, seguido por candidaturas de pessoas negras (78%) e indígenas (68%).
A pesquisa também mostra apoio expressivo à demarcação de terras indígenas (66%) e à defesa de pautas ambientais e sociais. Já 71% das entrevistadas rejeitam qualquer influência da religião nas decisões políticas — um índice que reforça a defesa da laicidade do Estado.
Mesmo com o engajamento crescente, 64% das mulheres reconhecem que ainda há discriminação contra sua presença na política. Para a pesquisadora Sofia Toledo, da Fundação Perseu Abramo, o problema está ligado ao “medo masculino de perder espaço e à persistência de estereótipos de gênero, fruto do patriarcado e da misoginia”.
Desigualdade e Empobrecimento
Os dados também evidenciam o agravamento das desigualdades socioeconômicas na última década.
Entre as mulheres negras, 59% têm renda familiar de até dois salários mínimos, e o índice sobe para 64% no Nordeste. A proporção de mulheres atendidas por programas sociais aumentou 50% desde 2010, sendo as negras a maioria.
Apesar do avanço na escolaridade, a renda feminina segue inferior à dos homens:
A informalidade também é maior entre as mulheres, enquanto os homens apresentam maior nível de formalização.
Trabalho Doméstico e Cuidado
O levantamento confirma que a carga doméstica continua majoritariamente feminina:
Também aumentou o número de lares chefiados por mulheres, que acumulam funções de cuidado e sustento.
Violência, Saúde e Machismo
A pesquisa mostra que metade das mulheres já sofreu algum tipo de violência. A física aparece em 11% das respostas espontâneas e em 22% quando estimuladas. As violências psicológica (43%) e moral (37%) são as mais comuns, mas pouco reconhecidas espontaneamente.
Em 42% dos casos de estupro relatados, o agressor é o companheiro.
Mesmo com 91% das mulheres conhecendo a Lei Maria da Penha, 58% das vítimas não pediram ajuda e 71% não registraram denúncia oficial. A maioria (69%) afirma ter sofrido impactos na saúde mental após episódios de violência.
Outros dados preocupantes incluem o aumento da violência obstétrica — um quarto das mulheres relatou agressões físicas ou verbais durante o parto — e a falta de acompanhamento médico em casos de aborto: 71% das mulheres que interromperam a gravidez o fizeram sem orientação profissional.
A percepção do machismo é ampla entre os dois sexos, embora apenas 10% dos homens se declarem machistas. Já o feminismo é mais compreendido como movimento por direitos, mas diminuiu o número de mulheres que se declaram feministas em relação a 2010.
Jornalista, radialista e advogado, formado na UFPB, Hermes de Luna tem passagens nos principais veículos de comunicação da Paraíba. É MBA em Marketing Estratégico e em mídias digitais. Apresentador e editor de TV e rádio, também atuou na editoria de portais e sites do estado. Ganhador de vários prêmios de jornalismo, na Paraíba e no Brasil.