Relatório mostra que expectativa política já pesa tanto quanto economia nas decisões de empresas e investidores
18 de agosto de 2026
Redação

O segundo semestre começa sob uma nova lógica no Brasil: à medida que o país entra em “modo eleitoral”, as expectativas passam a influenciar decisões políticas, econômicas e regulatórias antes mesmo que mudanças formais ocorram. É essa mudança de comportamento, e não apenas a evolução dos indicadores, que deve marcar os próximos meses, segundo a nova edição do Risco Político Brasil, relatório mensal da área de Public Affairs da consultoria global Burson, divulgado hoje. Estruturado em cinco eixos, o relatório combina dados oficiais e metodologia própria de análise para ajudar as empresas a anteciparem movimentos no tabuleiro político brasileiro.
 

Embora a economia apresente fundamentos relativamente favoráveis, como inflação em desaceleração, mercado de trabalho resiliente e expectativa de redução gradual dos juros, o levantamento da Burson mostra que empresas e investidores passam a incorporar um novo componente às suas decisões: a evolução do cenário político. A credibilidade das propostas econômicas e a percepção sobre responsabilidade fiscal ganham peso crescente na formação das expectativas, podendo influenciar juros, custo de capital e decisões de investimento antes mesmo de qualquer mudança efetiva na política econômica.
 

O ambiente eleitoral também tende a influenciar o comportamento de consumidores e agentes políticos, segundo o relatório. A confiança das famílias deve continuar ligada ao emprego, à renda e ao custo de vida, enquanto, no Congresso, a proximidade das eleições pode tornar a agenda legislativa mais seletiva e elevar o custo da articulação política. Nesse contexto, governabilidade, economia e confiança deixam de ser temas independentes e passam a produzir efeitos uns sobre os outros.

“O principal desafio do segundo semestre não será interpretar indicadores isoladamente, mas entender como política, economia e expectativas passam a interagir. Em períodos eleitorais, mudanças de percepção costumam produzir efeitos concretos antes mesmo das decisões formais”.Eduardo Galvão, diretor de Public Affairs do Grupo Burson


Cinco alertas que se destacam

  • Dívida sob teste de credibilidade: a Dívida do Governo chegou a 81,9% do PIB em junho, pressionada por juros que consomem 8,8% do PIB em 12 meses e o FMI (Fundo Monetário Internacional) alerta que o atual crescimento econômico não será suficiente sem um esforço fiscal consistente.
  • Tarifaço dos EUA vira fato consumado: a sobretaxa de 25% entrou em vigor em 22 de julho, elevando a até 37,5% a alíquota sobre setores como máquinas, madeira, calçados e móveis; e a crise já extravasou para o campo diplomático, com a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington.
  • Corrupção em nova escala: investigações que vão de emendas parlamentares ao caso Banco Master e a operações contra o PCC e o Comando Vermelho expõem uma teia cada vez mais sofisticada entre dinheiro público, sistema financeiro e crime organizado.
  • Fertilizantes e Oriente Médio ameaçam a safra: tensões no Estreito de Ormuz e restrições de oferta global colocam pressão de alta sobre fertilizantes nitrogenados, dos quais o Brasil importa até 90% do que consome.
  • Consumidor exausto, apesar do emprego forte: mesmo com desemprego no menor patamar da série histórica (5,4%), a confiança do consumidor caiu pelo terceiro mês seguido, hoje em 88,3 pontos, sinal de que o orçamento das famílias pesa mais do que os indicadores agregados e orientarão o voto nas eleições.

Um retrato completo do risco político

Estruturado em cinco eixos: Governança e Instituições, Condições Socioeconômicas, Investimentos, Conflitos e Desordem Social e Geopolítica, o Risco Político Brasil é uma publicação mensal do Grupo Burson que analisa os principais fatores políticos, econômicos, regulatórios, sociais e geopolíticos com potencial de influenciar o ambiente de negócios no país. A análise combina indicadores, evidências e metodologias próprias de inteligência, como construção de cenários, matrizes de risco e validação de hipóteses, para apoiar a tomada de decisão de empresas e lideranças.
 

Entre os destaques adicionais está o mapeamento de uma nova fronteira de oportunidade: o potencial de até R$ 192,1 bilhões em impacto no PIB e 750 mil empregos caso o Brasil avance na exploração e no processamento doméstico de minerais críticos, desde que consiga equacionar riscos territoriais, regulatórios e de segurança digital que também ganham peso neste ciclo eleitoral.

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