A menos de um ano das eleições, um novo olhar sobre o comportamento político das mulheres brasileiras traz pistas importantes para quem busca compreender o eleitorado mais numeroso – e decisivo – do país. O mapa narrativo Entre Nós, produzido pelo Instituto Update, interpreta os resultados da pesquisa Mulheres em Diálogo e aponta que o voto feminino tende a se organizar em torno de valores comuns entre progressistas e conservadoras.
O guia será apresentado durante o debate “Perspectivas das Mulheres Brasileiras: desafios, consensos e caminhos de diálogo”, a partir das 13h30, com participação das deputadas Lídice da Mata (PSB-BA) e Talíria Petrone (PSOL-RJ), da jornalista Carol Pires e da coordenadora de projetos do Instituto Update, Marília Nascimento, na Comissão da Mulher da Câmara dos Deputados.
Os dados reforçam um movimento de longo prazo: apesar da diversidade de perfis, as mulheres se consolidaram como o grupo mais estratégico da política brasileira – e o que mais compartilha consensos sobre os rumos do país. Representam mais da metade do eleitorado, transitam entre espectros ideológicos distintos e compartilham prioridades práticas que estão acima de crenças, classes e regiões.
Segundo o levantamento, por exemplo, 77% consideram a segurança pública o principal problema do Brasil, 94% defendem igualdade salarial entre homens e mulheres e 85% apoiam o aumento da presença feminina na política. Agora, para além dos números, a nova publicação busca compreender como essas necessidades são expressas e quais narrativas podem aproximar as eleitoras da política institucional.
“Há uma distância entre o que as mulheres pensam e o modo como o debate público fala com elas. O mapa mostra que é possível encontrar uma linguagem comum, mais próxima da vida real”, explica Carolina Althaller, diretora executiva do Instituto Update.
O que o mapa revela sobre o eleitorado feminino
O documento aponta que a maioria das mulheres apoia medidas de combate à violência e valorizam o papel do cuidado como forma de ação política. São temas que se cruzam com experiências concretas (maternidade, trabalho informal, sobrecarga doméstica) e atravessam grupos políticos, sociais, religiosos e demográficos, porém ainda são pouco explorados em campanhas – que tendem a reforçar identidades ideológicas.
“As mulheres querem soluções práticas e linguagem próxima da vida real. Estão cansadas do tom de confronto e não se interessam em quem vence a discussão, mas em quem resolve o problema. Política, para elas, é cuidar – do país, da comunidade, da família, de si mesmas. E esse é o eixo a partir do qual qualquer discurso pode ganhar credibilidade”, afirma Carolina.
Para o Instituto Update, esse movimento pode ter impacto direto na forma como partidos e campanhas abordam o eleitorado feminino nas próximas eleições. Num cenário de descrença e cansaço político, o mapeamento sugere que a força transformadora está menos no discurso e mais na escuta — e que a política que dialoga com a vida cotidiana das mulheres pode definir o rumo de 2026.
“O mapa traduz uma mudança de chave: falar com as mulheres não é convencê-las, é, sobretudo, ouvi-las”, resume Carolina.
Premissas para reconstruir o diálogo
Com base nessa leitura, o documento propõe cinco premissas para reconstruir o diálogo político. Uma delas é a ideia de que (1) a linguagem precisa acolher, não afastar – abandonar o tom de confronto e as palavras que soam distantes da experiência cotidiana. Também parte do reconhecimento de que (2) o diálogo é uma possibilidade real, sustentado na convivência e no respeito, e não um ideal utópico.
O mapa introduz ainda o conceito de (3) “consenso sobreposto”: razões diferentes – como fé, senso de justiça ou experiência pessoal – podem levar ao mesmo lugar. É o caso da igualdade salarial, defendida tanto por mulheres religiosas quanto por aquelas que enxergam o tema como questão de justiça social.
Outro princípio é o de que (4) mensagens difíceis exigem escuta cuidadosa – temas sensíveis, como moral ou religião, pedem empatia em vez de reação. Por fim, o documento lembra que (5) a política não está apenas nas instituições, mas na vida: no cuidado com os filhos, nas redes de apoio, no trabalho, nas pequenas decisões cotidianas que constroem o comum.
A pesquisa também traz um dado-chave para entender as próximas eleições: 68% das mulheres se informam sobre política em plataformas digitais, sobretudo WhatsApp e Instagram, e grande parte delas compartilha conteúdos com familiares e grupos de amigas.
Esse comportamento reforça que o voto feminino, mais do que reagir a discursos partidários, é moldado por redes de confiança e experiência cotidiana – uma dimensão que tende a ganhar força em 2026 e pode representar um desafio para campanhas que buscam se conectar com eleitoras fora dos polos da disputa.
Para Carolina, num país onde cada vez mais decisões políticas passam por grupos de mensagens e redes afetivas, compreender o voto das mulheres é também compreender a nova gramática da democracia brasileira. “Entre o ruído e o cansaço, elas seguem pedindo o mesmo: atenção, respeito e soluções concretas”, conclui a diretora.
Ainda nesta quarta, o lançamento do mapa narrativo Entre nós seguirá com a gravação ao vivo do podcast “Duas e Tanto”, apresentado por Carol Pires e Marina Dias, em conversa com Simone Tebet, ministra do Planejamento e Orçamento, a partir das 19h.
Jornalista, radialista e advogado, formado na UFPB, Hermes de Luna tem passagens nos principais veículos de comunicação da Paraíba. É MBA em Marketing Estratégico e em mídias digitais. Apresentador e editor de TV e rádio, também atuou na editoria de portais e sites do estado. Ganhador de vários prêmios de jornalismo, na Paraíba e no Brasil.