Um cochilo, uma gravata e a eterna intolerância

A reprodução da tela de uma plataforma de reuniões virtuais, onde se registrava o cochilo do procurador do Ministério Público do Estado da Paraíba (MPPB), José Raimundo, na 7ª sessão de julgamento realizada pela 4ª Câmara do Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB), causou polêmica nos meios forenses. Isso porquê em outra reunião, do mesmo órgão do TJPB, um advogado foi chamado atenção por um desembargador por não estar de gravata, embora estivesse de blazer e em seu escritório, acompanhando a sessão. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) reagiu.

O presidente da entidade, Paulo Maia, observou que “a simbologia, ainda que os atos tenham sido praticados sem intenção de menosprezo, aponta para a real distância entre a advocacia e os poderes”.

O Ministério Público da Paraíba e o Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB) não se manifestaram, mas o coordenador do Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), Octávio Paulo Neto, também comentou assunto. “Tenho visto diversas manifestações acerca de um cochilo ocorrido durante a sessão de julgamento do TJPB, por meio de uma aplicação de vídeo chamada. Ocorre que o membro do MPPB que tirou o cochilo, é um senhor de 73 anos de idade, logo tem todo direito de cochilar, até porque não é fácil aguentar essa liturgia vetusta, ultrapassada, que é nossa Justiça”, disse em defesa do colega de instituição.

Na avaliação do promotor, a liturgia da Justiça deveria tornar-se mais ágil e menos burocrática. “Pelo visto a pandemia apenas digitalizou a burocracia e o eterno e nefasto bailado incompreensível.. Será que não é chegada a hora de acelerar a transformação da prestação jurisdicional … Tornar mais ágil … Menos burocratizada.. menos cansativa …”, disse.

Nas redes sociais, dezenas de advogados também se manifestaram em favor do colega, que apenas estava sem gravata.

É hora das instituições e Poderes reverem seus conceitos de respeito à liturgia. O país vive um momento de excepcionalidade, onde se espera mais compreensão e mais tolerância das partes. Nos dois casos, faltaram essas condições de relacionamento humano serem aplicadas. Transformar o cochilo de um procurador numa espetacularização de mídia é, sim, demonstrar um preconceito contra as pessoas de idade mais avançada. Em certa medida, seria uma espécie de "preconceito estrutural".

Levaram para a chacota, quando deveriam tratar de forma humanizada uma situação como essa em momento delicado. Da mesma forma, é incompreensível a repreensão a um advogado pelo simples fato dele não estar sem a gravata, como se isso fosse mudar o curso do julgamento ou humores dos colegas de videoconferência. Vivam mais. Sejam felizes.